50% das mulheres terão infecção urinária ao longo da vida, afetando sua saúde e carreira
Já parou para pensar em como seria sua jornada de trabalho se não pudesse usar o banheiro quando precisa? Seja por falta de um espaço limpo e exclusivo para mulheres em seu local de trabalho ou por não poder simplesmente parar o que está fazendo? Já imaginou as consequências para a saúde e o constrangimento causado por essa situação?
Atender a uma necessidade fisiológica essencial para a saúde não deveria ser uma reivindicação, mas direito básico. No entanto, a realidade é outra, e os obstáculos nas carreiras das mulheres nem sempre são óbvios.
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Infecção urinária e as condições de trabalho das mulheres
Segundo dados do Ministério da Saúde, metade das mulheres terão infecção urinária ao menos uma vez na vida e cerca de 30% podem sofrer com o problema repetidamente. Esses números não revelam apenas questões anatômicas, como a medicina tradicional sugere, mas denunciam condições de trabalho precárias e desiguais.
A infecção urinária em mulheres surge por razões que vão além da formação pélvica. Segurar o xixi e usar roupas inadequadas e apertadas aumentam as chances de desenvolver a doença.
Existem inúmeras profissionais impactadas pela falta de banheiros em espaços públicos ou em seus ambientes de trabalho. Se você não é uma delas, provavelmente cruza com uma todos os dias.
São as motoristas de aplicativo que perdem corridas ao fazer uma paradinha, as comerciantes que precisam fechar rapidamente seus pontos, professoras com alta carga horária de aulas e ninguém para supervisionar os alunos, engenheiras fazendo visitas técnicas em locais sem banheiro e operárias industriais com hora marcada para sair do seu posto, apenas para citar algumas.
“O homem para em qualquer lugar e faz xixi. A gente que é mulher não. A probabilidade de ter infecção urinária é gigante. Eu não vou mentir não porque muitas das vezes já cheguei a me urinar. Só deu tempo de eu sair pra lateral do carro, por conta da alta demanda e a meta que a gente estipula pra poder terminar o dia.” – Motorista de aplicativo de Fortaleza (CE)
Ainda para quem trabalha em escritório ou em um órgão governamental, esse cenário não é tão distante. O próprio Senado só passou a ter um banheiro feminino em 2016, mais de 55 anos depois da inauguração do prédio do Plenário em Brasília, em 1960. “Até dezembro de 2015, o banheiro das parlamentares era o do restaurante anexo, disponível desde 1979, quando foi eleita a primeira senadora, Eunice Michilis”, registrou uma matéria da época no site da Casa.
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O trabalho não foi feito para elas
Apesar de diversas categorias profissionais apresentarem esse problema, ele é ainda mais presente em ambientes predominantemente masculinos. Por vezes, as escolhas das mulheres são dividir um único banheiro com o sexo oposto, o que deixa as condições do ambiente ainda mais insalubres, ou segurar o xixi e descuidar da higiene íntima por horas, favorecendo infecções.
A comunidade feminina nesses locais precisa lidar por conta própria com longos turnos de trabalho, uniformes e EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) inadequados para mulheres e pouquíssimas condições para realizar a higiene íntima. Imagina passar por tudo isso menstruada? Simplesmente porque o mundo do trabalho e a própria urbe não foram pensados para corpos femininos.
“Trabalho na área industrial há 20 anos e, quando comecei minha vida profissional, tive infecção urinária de repetição, problema com o qual convivi durante muitos anos. Eu segurava xixi do início do turno até o almoço e a parte da tarde toda. Mal bebia água pra não ter vontade de ir ao banheiro. É dura a realidade de quem trabalha em ambientes majoritariamente masculinos.” – mulher da comunidade Think Olga e Think Eva
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Não existe carreira sem saúde
Insegurança, constrangimento, afastamento por problemas de saúde e estagnação na carreira são só alguns dos problemas que dificultam a permanência dessas mulheres no mercado de trabalho.
“No início da minha carreira como engenheira, eu trabalhava o dia todo em obras que não tinham banheiro feminino. […] Resultado? Infecção urinária! Na época eu precisava da experiência no currículo e não podia exigir algo tão básico. Hoje eu entendo que se não tem o mínimo, tem que ser resolvido! Quando penso que fiquei 3 anos trabalhando o dia todo sem banheiro eu MESMA fico incrédula!” – mulher da comunidade Think Olga e Think Eva
Para mudar essa realidade e aumentar o número de mulheres financeiramente independentes e plenas com seus trabalhos, precisamos garantir o básico: a saúde e higiene delas.
* Este conteúdo contou com o apoio de Letícia Cassiano.