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“Geração sanduíche”: uma nova face da sobrecarga feminina

O fenômeno cresce globalmente e vem afetando a vida de diferentes mulheres. Saiba se você é uma delas, por que isso acontece e o que pode ser feito.

A “geração sanduíche” é aquela que responde às demandas de cuidado de diferentes gerações, como pais, filhos, e em alguns casos, netos, simultaneamente. A metáfora do sanduíche ilustra a forma como alguém acaba comprimido pelas várias camadas de responsabilidades. Caso você ainda não esteja nessa situação, é provável que um dia estará. 

O termo surgiu nos anos 1980 e, já nessa época, pesquisadores afirmavam que o fenômeno era caracteristicamente feminino. Em todo mundo, mulheres são 75% das responsáveis pelo trabalho de cuidado não remunerado, tornando-se as principais, quando não as únicas, a cuidar  dos filhos e dos pais adoecidos ou envelhecidos. Nos EUA, uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que 60% das pessoas “ensanduichadas” são mulheres

As mulheres da geração sanduíche são produto das grandes mudanças na demografia dos países. O aumento na expectativa de vida da população e a tendência/necessidade de adiar a maternidade fizeram mulheres terem filhos pequenos e pais em idade avançada no mesmo período. A redução na taxa de fecundidade também fez as famílias ficarem menores, embora o trabalho de cuidar e a responsabilização feminina tenham se mantido, com menos pessoas para dividi-los e pouco ou nenhum auxílio de políticas públicas: “A responsabilidade pelo cuidado é dada às famílias, mas não é dada a elas, necessariamente, a capacidade de cuidar”, afirma a economista Luiza Nassif Pires ao The Intercept Brasil

No Brasil, os dados sobre o grupo sanduíche ainda não são precisos: segundo a pesquisa de Simone Wajnman e Jordana Cristina Jesus, realizada a partir dos dados da Pnad Contínua de 2008, 6% das mulheres que cuidam no país faziam parte da geração sanduíche, a maioria entre 40 e 49 anos – mas um levantamento do G1 baseado nos dados do Censo de 2022 afirma que 35% dos brasileiros fazem parte dessa geração, sendo que, dentro desse grupo, 51% são mulheres. 

 

A complexidade brasileira: uma geração “panqueca”

Para as pesquisadoras Simone e Jordana, no Brasil, assim como em toda a América Latina, a geração sanduíche é multifacetada. Entre 229 países avaliados pela ONU, o Brasil ocupou a 32ª posição de mães mais jovens, tendo o primeiro filho por volta dos 27 anos. Assim, mesmo que as brasileiras tenham adiado a maternidade, elas têm filhos pequenos quando os pais ainda estão saudáveis. Contudo, por volta dos 55 anos, elas terão filhos com entre 20 e 30 anos e em média dois netos, e como as chances dela ainda possuir pais vivos mas já envelhecidos são grandes, ela assume o cuidado deles ao mesmo tempo em que pode ser acionada para ajudar na rotina com os netos. É o que Simone Wajnman chama de “geração panqueca”.

Em entrevista para a Folha, a pesquisadora reconhece que esse cuidado não está relacionado apenas ao vínculo familiar: “Essas mães se sentem compelidas a dividir com os filhos a responsabilidade de cuidar dos netos porque esses filhos estão entrando no mercado de trabalho e têm inúmeras dificuldades para se inserir nele. Têm problemas de renda e por isso essas avós são chamadas para cuidar das crianças”, afirma. No Brasil, a geração sanduíche também é atravessada por fatores socioeconômicos, e se agrava entre mulheres mais pobres e com menor escolaridade, perfil que se encontra majoritariamente na informalidade.

Em 2019, um estudo da OIT mostrou que o setor informal responde por 42% do emprego feminino no mundo. As desigualdades de gênero impõem barreiras à participação feminina no mercado de trabalho e penalizam seriamente a inserção das mães, tornando sua presença na informalidade mais frequente e o apoio familiar ainda mais importante. Esse problema também tem cor: segundo a Pnad de 2018, as mulheres negras são as que mais se dedicam ao cuidado dos parentes, sejam eles pais, filhos, netos, tios ou outros – 40% delas realizam esse tipo de trabalho, contra 35% das mulheres brancas. Elas também são maioria na informalidade: 47% das mulheres negras atuam nessa condição contra 36% das mulheres brancas. Por tabela, elas são as principais integrantes da geração sanduíche.

As demandas da geração sanduíche são diversas, como mostra o relato em nossas redes sociais: “O meu ‘sanduíche’ é um pouco diferenciado e envolve meu irmão mais velho, meu pai com câncer e seis animais de estimação que dão muito trabalho e gasto também. Amo meu pai, cuidaria dele sozinha nessa e em todas as vidas futuras, mas confesso que me choquei com o sumiço dos demais. Ele tem três filhos e três irmãs”. São muitos os cenários e arranjos familiares, o que torna mais complexo a busca por soluções “Em que cidades ou para que grupos demográficos é mais importante você ter serviço de cuidado com idosos e para quais é mais importante ter serviço de creche? É muito difícil a gente fazer essa diferenciação desse tipo de política hoje em dia, por falta de dados ”, aponta a economista Luiza Nassif Pires.

 

Políticas e perspectivas

No Brasil, só em 2023 mais de 2,5 milhões de mulheres deixaram de trabalhar para se dedicar ao cuidado. Desde a pandemia, as mulheres que têm entre 30 e 44 anos, da geração Millennials, se tornaram as principais representantes da geração sanduíche entre os norte-americanos. Estamos falando de uma parcela da população feminina economicamente ativa que tem seu tempo e  mobilidade restringidos, e sua presença no mercado de trabalho limitada para responder às necessidades de pessoas com diferentes demandas de cuidado.  Um estudo da Universidade de Michigan mostrou que 36% das pessoas dessa geração nos EUA passavam por dificuldades financeiras, o dobro do índice apresentado entre os que cuidavam, por exemplo, de apenas um parente idoso.

 

“O cuidado com os idosos muitas vezes cria um ciclo vicioso para as mulheres: elas precisam se ausentar do mercado de trabalho para praticar esse cuidado e deixam de contribuir para a previdência, assim têm uma velhice financeiramente instável. Então, quem cuidou a vida inteira, acaba sendo cuidada por uma filha, perpetuando esse ciclo.”

Luiza Nassif Pires – professora e economista em entrevista para o Intercept Brasil

Há também o fator mental e físico: 44% dos estadunidenses  da geração sanduíche tinham dificuldades emocionais. Segundo o relatório Esgotadas, do Lab Think Olga, 48% das mulheres brasileiras relatam que a causa de seu esgotamento mental é a situação financeira apertada, e para 20% delas a causa do adoecimento é a jornada árdua de cuidado. Ainda que a convivência multigeracional possa impulsionar a saúde e o bem-estar e permitir que mães se mantenham no mercado de trabalho, a pressão emocional e econômica que as múltiplas tarefas impõe à geração sanduíche gera graves consequências.

Para Simone Wajnman, com o envelhecimento da população, teremos cada vez mais pessoas vivendo essa pressão.Em enquetes realizadas nas redes sociais de Think Eva, recebemos 135 respostas e vimos que 32% das respondentes já estavam “ensanduichadas”, e 43% acreditam que irão viver essa condição muito em breve. Isso só reforça que o cuidado não se trata de uma responsabilidade familiar ou feminina, mas de uma questão coletiva e pública. Em 2023, o Governo Federal publicou o Marco Conceitual da Política Nacional de Cuidados do Brasil, criado pela Secretaria Nacional de Cuidado e Família do Ministério do Desenvolvimento Social, que irá definir o entendimento e o papel do Estado na garantia do cuidado, possibilitando a expansão de serviços que garantam esse direito. Trata-se de um documento aberto para consulta pública que vai servir como base para uma futura política.

Para Luiza Nassif Pires, essa política precisa focar nas pessoas que cuidam. Em entrevista ao The Intercept Brasil, a economista afirmou: “Uma política de cuidado precisa estar muito focada nos direitos trabalhistas de quem cuida e na universalização do cuidado”. Hoje, a maior parte dos direitos, como licenças e aposentadoria, ainda estão atrelados ao trabalho formal, o que exclui mulheres donas de casa ou que estão no mercado informal. “Então, fica a pergunta: quem no futuro irá cuidar de quem cuidou a vida inteira? Uma política de cuidado precisa responder isso.” 

Países da América Latina já mostraram ser possível. A Argentina remunera suas cuidadoras comunitárias e em Bogotá, na Colômbia, sistemas coletivos foram criados para reduzir a sobrecarga das mulheres, construindo espaços de lazer onde há pessoas para cuidar dos filhos e até mesmo lavar roupas. “Todo mundo fica ‘nossa, tem alguém para lavar a sua roupa’, porque isso está tão internalizado como uma coisa pessoal, que nem vemos como um trabalho de cuidado”, pontua Luiza. O Ministério das Mulheres no Brasil também abriu um edital para financiar lavanderias públicas. Políticas dessa natureza são importantes não apenas para delinear as ações do setor público, como também reduzir desigualdades no setor privado, o que pode resultar, dentre várias coisas, na redução da sobrecarga e na maior inserção e permanência de mulheres no mercado de trabalho. 

São mudanças estruturais que precisam esforço conjunto dos diferentes âmbitos da sociedade. E nós queremos colaborar com as empresas a darem os primeiros passos nessa direção

Este conteúdo foi escrito em colaboração com Rubiana Viana.

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