Perdemos 93 bilhões de reais na economia com a desigualdade salarial. Como superar as barreiras?
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As mulheres só vão ter chances de avançar – na vida, no trabalho e em seus sonhos – quando tiverem dinheiro na mão. Já são mais de 80 anos discutindo igualdade salarial no Brasil e ainda estamos longe desse objetivo. 21% distantes, para sermos mais exatos. E estamos caminhando na contramão.
O último Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios do Ministério do Trabalho e Emprego mostrou 21,1% de discrepância – em março de 2024, era 19,4%. O levantamento olhou para mais de 19 milhões de vínculos empregatícios em 54 mil empresas com 100 ou mais empregados. Sabemos que há ainda um contingente de pequenas e médias empresas que ficam de fora da análise.
Ainda que a presença feminina no mercado de trabalho tenha aumentado, assim como o nível de escolaridade delas, o salário não acompanhou o mesmo ritmo.
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Por que essa diferença ainda persiste? As empresas alegam que as diferenças salariais têm a ver com tempo de casa, metas e planos de carreira. Mas sabemos que a raiz do problema é mais profunda. Aqui elencamos algumas barreiras e caminhos para superá-las:
* (A falta de) políticas de incentivo
Apesar de estar na lei – desde 1943 pela CLT e desde 2023 na Lei 14.611, que inclui mecanismos para a sua efetivação – a igualdade salarial só vai ser alcançada com ações concretas dentro das empresas. Faltam políticas de incentivo e um olhar estratégico para a questão. Entre as medidas efetivas, destacamos: capacitar as mulheres, estruturar planos de ascensão, combater o assédio e garantir uma cultura organizacional livre de discriminação e vieses que prejudicam a avaliação de performance e a promoção salarial de mulheres.
* Elas trabalham dentro e fora de casa
As mulheres são as principais responsáveis pelo cuidado. Isso demanda tempo, energia e esforço físico e mental. Um estudo da McKinsey mostra que, em todo o mundo, quando homens e mulheres são promovidos em seus cargos, a responsabilidade deles em casa diminui enquanto a delas permanece a mesma. Isso contribui para a disparidade salarial, que cresce em cargos de maior nível hierárquico. Reconhecer a sobrecarga pelo trabalho de cuidado, incentivar responsabilidades compartilhadas e ter licenças parentais iguais para homens e mulheres são ações que as empresas devem adotar.
* O impacto da maternidade
Mães trabalhadoras frequentemente enfrentam salários mais baixos, uma disparidade que pode aumentar a cada filho, um fenômeno conhecido como “penalidade da maternidade”. Em contrapartida, pais geralmente têm maior probabilidade de ver seus salários aumentarem após terem filhos.
* Preconceitos históricos
Vivemos em um Brasil machista e racista. Os ambientes corporativos, em sua maioria, espelham essa sociedade. A dificuldade das mulheres avançarem profissionalmente está ligada ao nosso machismo estrutural que permeia todas as camadas da sociedade. E os dados do Relatório de Transparência comprovam isso: a média dos salários de admissão das mulheres negras é de R$ 1.836. Dos homens não negros é de R$ 2.764,30. No rendimento médio, o abismo chega a 53%. Elas ganham cerca de R$ 2.986,50. Homens não negros alcançam a média de R$ 6.391,14.
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Jornadas e salários mais justos
As mulheres são cada vez mais as responsáveis financeiras dos lares e famílias – e gastam mais com questões domésticas. Somado a isso, são as mais empobrecidas com menos acesso ao crédito e menos oportunidades. Por essas razões, quando elas sonham com dinheiro, sonham com estabilidade e autonomia financeira.
“Nossos estudos mostram que as mulheres sonham com dinheiro para ter o mínimo, que é segurança, estabilidade e cuidado. Para os homens, esses sonhos estão mais ligados ao status, ao luxo e ao reconhecimento externo. Para que as mulheres possam sonhar além do básico, elas precisam ter as mesmas condições. A igualdade salarial é o passo um nessa direção .”
Nana Lima – cofundadora da Think Eva
Com uma vida financeira sólida, segura e mais estável, as mulheres tomam decisões mais assertivas. Isso é bom para todos e se traduz em mais bem-estar, saúde e educação, reduzindo a pobreza e a desigualdade. Para seguirmos com o lastro na economia, aqui estão os números: 93 bilhões de reais seriam injetados na economia se houvesse igualdade salarial.
Por tudo isso, não podemos aceitar que, ano após ano, a notícia da desigualdade salarial se repita. O governo tem fiscalizado e, em 2025, 787 ações que afetam cerca de 1 milhão de empregados foram tomadas.
Dentro das empresas, além de todas as ações que mencionamos, é necessário investir em cultura organizacional e no engajamento das lideranças para colocar o fortalecimento das comunidades femininas no centro das decisões.