Se hoje as mulheres ganham menos, não é por acaso, e sim pela desvalorização do trabalho feminino

A economista que ganhou o Prêmio Nobel de Economia e dedicou sua vida aos estudos de gênero, fez história novamente. Não é nenhum mistério que aqui na Think Eva admiramos muito o trabalho da Claudia Goldin. Suas pesquisas em mais de 134 países comprovaram o impacto negativo na carreira das mulheres com a chegada do primeiro filho, em contraste com um efeito quase nulo sobre a trajetória profissional dos homens que se tornam pais.

Recentemente, Claudia Goldin foi além da academia e ajudou a produzir uma mudança histórica: contribuiu para um dos maiores aumentos salariais já negociados por um sindicato, beneficiando as atletas da WNBA (Women’s National Basketball Association – a liga feminina de basquete dos EUA). 

Após receber o Prêmio Nobel, passou a ser inundada por convites e propostas — telefonemas, e-mails e agendas disputadas. Entre as poucas iniciativas que aceitou assessorar, está a da WNBA e as negociações de um novo acordo coletivo de trabalho, consultoria que realizou sem receber qualquer remuneração.

A conclusão de Goldin foi que não se tratava de um resultado “natural” do mercado, mas de uma escolha institucional sobre como distribuir receita. Com base nessa análise, as negociações avançaram e resultaram em um aumento salarial histórico de aproximadamente 400%, elevando a média salarial para mais de US$ 500 mil. Ainda assim, a média dos salários dos atletas homens é de, pasmem, cerca de US$ 12 milhões. Claudia Goldin expôs a desigualdade com rigor técnico. Como desver uma situação dessas?

Esse caso ilustra algo que vemos repetidamente em diferentes setores. A desigualdade salarial de gênero raramente é fruto apenas de decisões e performances individuais; ela está embutida em estruturas como políticas de promoção, tempo de casa em indústrias historicamente masculinas, valorização de determinadas funções e modelos de remuneração que penalizam, por exemplo, a maternidade ou a necessidade de flexibilidade para exercer o trabalho de cuidado.

No Brasil, mesmo após avanços legislativos como a Lei de Igualdade Salarial, as mulheres ainda recebem, em média, cerca de 21% a menos do que os homens. Essa diferença também persiste quando controlamos fatores como escolaridade e experiência, o que reforça que não estamos falando apenas de escolhas individuais, mas de sistemas que continuam valorizando de forma desigual o trabalho e a contribuição feminina.

Mas talvez a principal lição deste caso vá além dos números. Ele mostra o poder de colocar evidências a serviço da transformação, da justiça social e da equidade. Quando conseguimos traduzir desigualdade em dados claros e comparáveis, criamos as condições ideais para questionar o que antes parecia natural.

E isso vale para o esporte, para o mercado corporativo ou para qualquer organização que ainda convive com discrepâncias entre contribuição e reconhecimento. E quantos cenários e visões de mundo seguem distorcidos porque simplesmente não são medidos?

O que o exemplo da WNBA nos prova é que desigualdades históricas não se corrigem sozinhas. Se a história recente nos ensinou algo, é que as desigualdades tendem a voltar ou aumentar se não agirmos. Elas precisam ser medidas, compreendidas e, principalmente, enfrentadas. Como a própria Goldin escreveu em seu artigo no New York Times: “é só matemática”.

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