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Quem são as mães brasileiras?

No mês delas, precisamos reforçar o óbvio: não existirá equidade de gênero sem suporte aos diversos tipos de maternidade

A maternidade revisita e reforça barreiras de gênero que atravessam diferentes áreas da vida, mas isso não é novidade. No Brasil, 7 em cada 10 mulheres são mães, e em meio a tantos debates sobre cuidado e mercado de trabalho, um questionamento importante fica de escanteio: quem são as mães brasileiras? A resposta para essa pergunta revela porque algumas medidas importantes podem falhar na inclusão e permanência de mulheres no mercado de trabalho.

 

Solitária e vulnerável

Segundo o Datafolha, 55% das mães brasileiras são viúvas, divorciadas ou solteiras, e criam seus filhos sem a presença de um companheiro ou companheira, ou seja, exercem uma maternidade solo. Além disso, 37% das mães solo estão fora da força de trabalho ou desempregadas, e quando no mercado, o salário delas é 39% menor do que dos pais casados. 

Antes mesmo da pandemia, o IBGE havia mostrado que 57% das mães que criam seus filhos sozinhas estavam na pobreza. Em entrevista para Folha, Janaína Feijó, pesquisadora do FGV Ibre, afirma que a situação reflete as desigualdades de gênero: “Ao contrário das mães solo, a trajetória dos homens no mercado de trabalho não é afetada após o nascimento dos filhos”, afirma. “As mulheres casadas também enfrentam dificuldades no mercado de trabalho. A diferença é que elas podem contar com uma pessoa a mais com renda”.

“O principal desafio é não ter alguém para chegar junto quando estou exausta. Alguém para dividir, sabe?” – Relato de uma seguidora Think Eva, mãe solo de uma criança de 5 anos

Contudo, segundo pesquisa da FGV, 90% das mães solo do país são negras. O rendimento delas ficou 39% abaixo da média para mães solo brancas e amarelas, e só 9% possuíam ensino superior. O percentual de mães solo negras fora da força de trabalho também é maior em relação a outros grupos, e em 2019, 64% dos lares chefiados por mulheres negras estavam na pobreza, um número que só cresceu durante a pandemia e permanece alto.

É difícil para todas as mulheres – mas é pior para as mães

Segundo o Datafolha, a probabilidade de uma mulher sem filhos chegar até o ensino superior é 112% maior do que a das mães de crianças pequenas. A FGV também revelou que 54% das mães solo possuem apenas o ensino fundamental, e só 14% possuem ensino superior. Como o nascimento de um filho afeta a continuidade dos estudos, não por acaso, quanto mais jovem a mulher era quando se tornou mãe, maiores as chances dela estar vivendo na pobreza – o rendimento médio de quem se tornou mãe aos 15 anos, por exemplo, é de R$800. 

Independente da idade, mulheres com filhos pequenos e com baixo nível educacional têm 52% menos chance de participar no mercado de trabalho em comparação a homens. Aliás, os índices de participação no mercado de trabalho das mães só se iguala ao de uma mulher sem filhos passados 18 anos do nascimento da criança. Além disso, os estudos que a FGV têm realizado nos últimos para acompanhar a jornada das mães no mercado de trabalho revelam que:

  • Quase metade das mulheres é demitida 24 meses depois do retorno da licença maternidade
  • Ao final da pandemia, a taxa de participação de mães no mercado de trabalho era de apenas 38% contra 72% dos pais.
  • No mercado de trabalho, as mulheres com filhos de modo geral recebem em média 23% menos que homens na mesma condição. 

Ter um filho hoje penaliza menos a população feminina do que há uma década – mas continua custando caro para mulheres porque, de lá para cá, uma coisa ainda não mudou: a má distribuição do trabalho de cuidado. Elas ainda são as principais responsáveis pelo cuidado dos filhos, e em função da sobrecarga, não conseguem participar plenamente da economia. Como resultado, 9 em cada 10 mães se sentem esgotadas, sobrecarregadas e adoecidas.

“Desde que ele nasceu, a mulher e a profissional ficaram em segundo plano, a ponto de custar o desenvolvimento de minha carreira, pois ele é minha prioridade.” – Relato de uma seguidora Think Eva, mãe solo de uma criança de 6 anos

As mães frequentemente escolhem ocupações mais flexíveis ou reduzem suas horas de trabalho para equilibrar suas rotinas, o que diminui seus rendimentos. “Para conciliar maternidade e trabalho, ela muitas vezes vai para uma ocupação informal”, afirma Janaína Feijó. Ser mãe, ou a possibilidade de se tornar uma, também diminui as chances de promoção, já que o mercado ainda valoriza trabalhadores totalmente disponíveis às rotinas inflexíveis de trabalho.

A maternidade real exige soluções reais

Para lidar com maternidades diversas, solitárias e vulneráveis precisamos de políticas públicas e ações de apoio ao cuidado que sejam sistêmicas.

Em entrevista à Folha, a professora da FGV, Cecília Machado, afirma que ações como licença maternidade estendida são importantes, mas precisam ser adaptadas para diferentes realidades: “Existe um grupo considerável de mulheres para o qual esses direitos não incidem. Para essas mulheres, a possibilidade de trabalhar não é porque ela não consegue um emprego, mas porque não tem com quem deixar a criança”. Hoje, 1,3 milhões de casas brasileiras são chefiadas por mães solo, e em 72% delas, não há nenhum parente ou rede de apoio.

A pesquisadora Janaína Feijó propõe a ampliação do acesso a creches e escolas que atendam às diversas necessidades socioeconômicas: “Para a mãe com filho pequeno, a creche é fundamental. Muitas vezes, a creche não está perto da mãe, e os horários não ajudam. É preciso entender quais são as demandas das mulheres”. Ela também defende a capacitação para as mães que tiveram de interromper os estudos e flexibilização dos horários de chegada e saída do trabalho para que as mães possam conciliar seus compromissos, além de modelos remotos e híbridos.

“O principal apoio que eu gostaria de ter é das empresas, principalmente, salários equiparados. Não reduzirem meu valor por ser mãe solo, porque isso acontece desde que ele nasceu: fui congelada e depois demitida. E as oportunidades que vieram eram sempre barganhando um salário abaixo do mercado.” – Relato de uma seguidora Think Eva, mãe de uma criança de 6 anos

Viviana Santiago, consultora em Diversidade, pontua o abandono parental. “Muitas jovens são abandonadas no cuidado desses bebês, o que demonstra como a paternidade não é um lugar naturalizado para os homens. Isso também gera uma sobrecarga para elas tanto no cuidado do filho quanto na responsabilidade para sustentar a família, o que muitas vezes faz com que elas adiem outros projetos, como os estudos.” Todos os dias, 470 crianças nascidas no Brasil são registradas sem o nome do pai, e mesmo as reconhecidas são negligenciadas. A licença paternidade estendida é importante, mas deve ser acompanhada de uma mudança cultural no papel dos homens em relação ao cuidado

“O outro apoio é que o genitor fosse presente, dividisse a carga mental e física também. Para que, assim como ele, eu possa ter uma vida para além de casa, filho e trabalho. (…) Nos últimos dois anos, finalmente ele tem feito ao menos a parte financeira, mas também é só isso. Vê o menino quando quer, não estabelece uma relação, é sempre ele, os treinos e o trabalho dele em primeiro lugar.” – Relato de uma seguidora Think Eva, mãe de uma criança de 6 anos

Viviana também denuncia a naturalização da gravidez na adolescência e o casamento infantil, problemas crônicos no país de origem cultural e econômica. A cada hora, 44 bebês nascem de mães adolescentes, sendo 73% filhos de adolescentes negras. As mães mais jovens são meninas indígenas. Ampliar a conscientização, o empoderamento econômico e social das meninas e de suas famílias e as redes de proteção, acolhendo vítimas e punindo agressores, é fundamental. Ao mesmo tempo, é necessário investir em educação sexual, garantindo acesso aos métodos contraceptivos e ter ações para manter meninas na escola.

“Se minha filha tiver acesso à educação de qualidade, segurança e alimentação, essa carga já estaria menor. Porque não saber se poderei garantir isso para ela é o que mais tira o meu sono.” – Relato de uma seguidora Think Eva, educadora social e mãe de uma criança de 5 anos

Equidade de gênero exige a inclusão intencional das mães no mercado de trabalho, com políticas assistivas que tornem o cuidado uma ação colaborativa, mas também ações que impulsionam sua inserção e permanência nas empresas, como vagas prioritárias, planos de carreira adaptados e condições organizacionais que abracem o cuidado. Em 2023, o Governo Federal publicou o Marco Conceitual da Política Nacional de Cuidados do Brasil, que define o papel do Estado e busca a expansão de serviços que garantam o cuidado como direito, e países como a Colômbia já investem em ações no setor público e privado para dividir ampliar a responsabilidade pelo cuidado, mostrando a eficiência do modelo. 

E sua empresa, o que tem feito pelas mães?

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