Spoiler: a maioria das mulheres não consegue.
Tempo para levar os filhos à escola, organizar a casa, fazer as compras da semana e, quando dá, cuidar de si. Para as mulheres, a volta ao trabalho presencial não interfere apenas em uma rotina que levou meses para ser construída — ela coloca em risco a própria permanência no mercado de trabalho.
A nova pesquisa do Insper, em parceria com a Robert Half, trouxe um alerta importante: quando o retorno 100% presencial é obrigatório, 81% das mulheres consideram pedir demissão — entre os homens, esse número cai para 66%. Mesmo com uma redução parcial do home office, o cenário pouco muda: 77% das mulheres cogitam sair, contra os mesmos 66% dos homens.
* O peso do trabalho de cuidado
Para elas, o trabalho remoto nunca foi um “benefício”. Sobrecarregadas com o cuidado dos familiares e a gestão da rotina doméstica, as mulheres encontraram na flexibilidade do home office uma solução para permanecer em seus empregos formais. Retirar essa flexibilidade agora, sem considerar essas desigualdades, significa empurrar mulheres para fora do mercado de trabalho e reduzir, mais uma vez, sua autonomia financeira e material.
“Estou trabalhando em modelo presencial e tem sido muito caótico. A casa acaba ficando abandonada, mesmo eu e meu noivo nos ajudando. Quando eu trabalhava em regime híbrido, eu conseguia tirar um tempinho para me organizar. Hoje, chego em casa e só quero fazer comida e ir dormir.”
-Relato da Comunidade Think Olga
* Retrocesso para elas
Nos Estados Unidos, onde isso já acontece, 212 mil mulheres deixaram o mercado de trabalho entre janeiro e agosto deste ano, enquanto 44 mil homens passaram a fazer parte dele. E, apesar da tendência das trad wifes, a maioria não saiu do mercado porque quer acordar às 4h30 para servir leite fresco pra família, mas porque o custo de vida para uma família com crianças está cada vez mais alto e a obrigatoriedade do retorno ao escritório torna financeiramente inviável qualquer decisão que não seja abrir mão da carreira para cuidar dos filhos ou empreender por necessidade.
É muito preocupante a possibilidade de o Brasil retornar a um cenário de desemprego alto ou de empregos ainda mais precários para as mulheres, como em 2020, em plena pandemia quando voltamos aos índices de empregabilidade dos anos 90 e uma alta porcentagem das mulheres ficou fora do mercado de trabalho. Isso aconteceu justamente porque muitas abriram mão de suas carreiras para cuidar dos filhos e parentes, já que escolas, avós e redes de apoio estavam indisponíveis. Além disso, como as mulheres são maioria no setor de serviços, elas foram as primeiras a ficar sem emprego e renda.
* Não existe futuro do trabalho sem as mulheres
Nenhuma empresa deveria investir em programas de mentoria, trilhas de liderança ou ações de diversidade sem entender profundamente as barreiras que as mulheres daquela empresa enfrentam. Os desafios de uma futura executiva da Faria Lima não têm nada a ver com os de uma trabalhadora da operação em uma mineradora no Pará, e isso quase nunca aparece em uma pesquisa de clima.
É preciso construir confiança com a comunidade feminina, garantir espaços seguros de escuta e atuar sobre o que muda, de fato, o ponteiro das metas de equidade (não apenas no administrativo, mas também na operação) e do bem-estar e qualidade de vida das funcionárias.
“A ideia de que estar em casa prejudica a cultura da empresa, a conexão entre as pessoas e diminui a perfomance é cheia de vieses e só considera quem tem facilidade para se deslocar e se desconectar de casa ao sair dela. Essa não é a realidade para muitas mulheres.”
-Relato da Comunidade Think Olga
Dentro dos debates sobre o retorno ao escritório, colocar uma lente de gênero para entender quem será pior impactado por essas decisões é urgente. Isso é equidade na prática. Flexibilidade não é benefício: para nós, mulheres, ainda é ferramenta de inclusão.
–
Quer saber mais? Assine nossa newsletter para receber nossos conteúdos em primeira mão.