Há poucos séculos, nós, mulheres, não podíamos chegar muito perto dos números. Falar em contas e frações? Nem pensar! Nosso trabalho era cuidar da casa, ser uma boa esposa e, principalmente, se dedicar à maternidade. A ideia de frequentar uma escola e aprender algo além das atividades domésticas era absurda – e proclamada aos quatro ventos sem vergonha pelas figuras políticas e influentes da época. Já dizia o Senador Marquês de Maricá, no século 19:
“Sou também da opinião que se devem reduzir os estudos das meninas a ler, escrever, contar e gramática portuguesa, porque não sei de que lhes possa servir o aprender a prática de frações, decimais e outras operações que não são usuais… A mulher é um ente mui diverso do homem. O que ela deve saber é o governo doméstico da casa e os serviços a ele inerentes, para que se façam boas mães de família.”
No nosso novo Lab Think Olga e Think Eva, Elas Pagam a Conta, traçamos o caminho histórico que as mulheres percorreram nos últimos séculos até conquistar direitos básicos: da cuidadora abnegada a chefes de famílias. Olhamos para a autonomia financeira feminina a partir de diferentes ângulos, incluindo a chegada dos filhos.
Neste artigo, aprofundamos o tema e refletimos qual é o custo de ser mãe no Brasil – e porque os homens não dividem essa carga igualmente, tanto a financeira quanto a emocional.
A penalidade materna
Conquistamos o direito de estudar, trabalhar e assinar nosso próprio nome nos documentos. Mas o mercado de trabalho ainda cobra um preço para as mulheres que desejam ser mães, um preço que não é cobrado aos que desejam ser pais.
A economista Claudia Goldin, vencedora do Prêmio Nobel de Economia, identificou que o mercado recompensa melhor quem está disponível para jornadas longas e inflexíveis. Sendo as mulheres as principais responsáveis pelos filhos, elas têm menos disponibilidade de tempo. O resultado é uma progressão menor carreira, com salário mais baixos e menos oportunidades. No Brasil, a diferença salarial entre homens e mulheres está em 21%.
Além disso, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que 95% dos homens entre 25 e 54 anos estão empregados ou buscando emprego, contra apenas 52% das mulheres na mesma faixa etária. Já o Atlas da Penalidade da Maternidade, que analisou 134 países, chegou a uma conclusão direta: o nascimento do primeiro filho afasta as mulheres do mercado de trabalho em praticamente todos os lugares do mundo.
Por aqui, a Pnad Contínua/IBGE mostrou que o nascimento do primeiro filho reduz em até 24% o salário de uma mulher; entre as que têm três filhos ou mais, essa queda chega a 40% na comparação com mulheres sem filhos. Uma pesquisa do Serasa também mostra que 81% das mães solo já precisaram recorrer a algum tipo de trabalho informal para complementar a renda, sendo a limpeza a maior fonte de ganho extra, com 38%. Na outra ponta, a carreira masculina segue sem contratempos pela paternidade.
Além da carreira, vale lembrar que a chegada de um ou mais filhos compromete cerca de 30% da renda da família. Em famílias onde o pai e mãe são presentes, o homem costuma prover os grandes gastos como escola e moradia. Já a mulher é responsabilizada pelo que chamamos de pix invisível, que são os custos “escondidos” que sustentam o bem-estar do dia dia, como a roupa que ficou pequena para o filho, o remédio da mãe doente, o presente de um coleguinha da escola… Quando uma mulher é mãe solo, como a maioria no Brasil, ela – geralmente – assume sozinha o dia a dia das crianças e adolescentes, tanto na rotina quanto nas contas. A pensão paterna raramente cobre o necessário:
“Fui mãe jovem e tudo veio depois da maternidade, inclusive o rompimento com uma situação sócio-econômica muito desfavorável. Foi sempre tudo comigo, tanto no financeiro quanto na educação, com uma rede de apoio precária. Deu certo, mas o preço foi uma vida de cansaço extremo. Sempre me senti muito injustiçada pelo sistema da pensão de 30%, porque do meu dinheiro sempre foi 200%.”
Mulher da comunidade Think Olga
A pobreza de tempo das mulheres que cuidam
Existe um custo que não aparece em nenhum extrato bancário e que só agora começa a ser considerado nas conversas econômicas: o do trabalho de cuidado.
Cuidar da casa, dos filhos, dos pais idosos é a função mais importante, já que garante a manutenção da vida e o bem-estar da família. É o cuidado que faz a roda da vida e da economia girar. No entanto, esse trabalho não é nem remunerado e nem contabilizado. Mesmo existindo em qualquer configuração familiar, costuma ser invisibilizado e delegado às mulheres. A estimativa é que elas dediquem o dobro do tempo nas tarefas de cuidado quando comparado aos homens. Uma pesquisa da FGV estima que se o trabalho de cuidado fosse remunerado, representaria 13% do PIB nacional.
Cuidar exige dedicação emocional, física e, principalmente, de tempo. Um tempo que é consumido das mulheres. Um tempo que poderia ser dedicado para perseguir oportunidades de estudo, profissionais e a própria autonomia financeira.
“[…] Uma questão central quando a gente fala da inserção das mulheres no mercado de trabalho é o trabalho de cuidado. Na prática, muitas vezes a mulher só consegue entrar ou permanecer no mercado se o que ela ganha for maior do que o custo desse cuidado. E isso vira uma barreira enorme. Porque, quando a gente cruza isso com a brecha salarial e com a precarização dos rendimentos, fica claro como é difícil para muitas mulheres ultrapassarem esse patamar mínimo. Enquanto isso, para os homens, existe uma pressão social diferente — a ideia de que eles devem ser provedores faz com que trabalhem independentemente desse tipo de cálculo.”
Bárbara Ferrito, Juíza do Tribunal Regional do Trabalho no Rio de Janeiro
Inclusão financeira da mulheres e das mães
Hoje, mais da metade das famílias brasileiras têm uma mulher como principal responsável, muitas delas, mães solo. E é para elas que as estratégias de inclusão financeira olham. No Brasil, 81,2% dos beneficiários do Bolsa Família são mulheres, e o retorno dessa escolha já aparece nos dados: pesquisas mostram que elas priorizam alimentação, educação e saúde, enquanto os homens tendem a gastar mais com despesas pessoais. Colocar o dinheiro na mão da mãe é uma estratégia com resultado mensurável.
O mesmo racional está por trás do microcrédito. Um dos exemplos mais conhecidos é o programa criado por Muhammad Yunus, ganhador do Nobel da Paz. Em seu programa de pequenos empréstimos para pessoas em situação de extrema pobreza, cerca de 97% dos clientes são mulheres. Yunus percebeu, na prática, que o dinheiro entregue às mães gerava retorno social mais rápido: nutrição, melhoria da moradia e educação dos filhos quase imediatamente, ajudando a quebrar o ciclo geracional da pobreza de forma mais eficiente do que qualquer outra estratégia.
Já o mercado financeiro, precisa pensar em uma linguagem mais acessível e inclusiva dentro de seus sistemas e canais de comunicação. Além disso, existe a oportunidade de desenvolver produtos específicos para as mães, oferecendo taxas reduzidas, juros menores e crédito facilitado. Afinal, na mão delas, a probabilidade do dinheiro circular e render positivamente para a comunidade é sempre alta.
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