A falta de saneamento básico acentua a desigualdade de gênero. Mas por que não falamos sobre isso?
Você acorda de manhã, toma banho e vai passar um café. Talvez tenha louça acumulada, roupa para lavar, criança em idade escolar precisando de atenção ou uma mãe idosa esperando por cuidados. Já se perguntou como essa rotina seria diferente sem água limpa na torneira? Ou se os dejetos da casa não sumissem da sua vida quando você aperta a descarga?
Se nos importamos em imaginar um mundo justo para as mulheres, não podemos deixar nenhuma para trás. E elas são muitas. Abordar saneamento básico é olhar para a raiz de muitas faces da desigualdade de gênero, interligando temas como falta de saúde e dignidade ao mercado de trabalho.
Um país atrasado
Se você não vive na periferia, em zonas urbanas com fornecimento intermitente ou regiões com água de má qualidade, talvez não saiba que quase 45% dos brasileiros não têm coleta de esgoto e 15,8% não recebem água tratada (SNIS, 2022).
Apesar de ser um problema mais intenso no Norte e no Nordeste, a vida sem acesso pleno ao saneamento básico também é realidade no sudeste, onde há os melhores índices. A privação desse direito vai muito além de uma simples inconveniência e aprofunda as desigualdades no país. Um exemplo prático é na escola: onde não há saneamento, o desempenho escolar cai pela metade.
Desde 2000, quando o IBGE passou a monitorar, a oferta do serviço para a população em geral subiu apenas 16,5%. Mas esse aumento não se reflete para as mulheres. Pelo contrário.
O número de mulheres morando em casas sem coleta de esgoto saltou de 26,9 milhões para 41,4 milhões em três anos, de 2016 a 2019. Isso representa um aumento anual de quase 16%. – Instituto Trata Brasil, 2022
Na contramão do resto do país, as mulheres vêm perdendo o acesso a esse direito básico. Mas o que está por trás disso?
A pobreza (ainda) tem rosto de mulher
Duas pessoas saem de casa de manhã para trabalhar. Uma delas não tem banheiro em casa e, por isso, deve receber ao longo de sua carreira 126 mil reais a menos que seu colega com acesso ao saneamento.
Excesso de tarefas domésticas, saneamento precário e falta de tempo impedem que as mulheres trabalhem fora de casa e tragam recursos, gerando um ciclo de pobreza que se estende por gerações. Cerca de 70% das pessoas vivendo em situação de pobreza em todo o mundo são mulheres. Isso acontece por uma série de razões, como a desigualdade salarial, o aumento de mulheres como únicas responsáveis financeiras de seus lares e a dificuldade de conciliação do trabalho de cuidado e o trabalho remunerado.
Esse fenômeno chamado de feminização da pobreza apresenta uma consequência grave: uma em cada quatro mulheres não têm acesso regular à água tratada, quase 40% residem em casas sem coleta de esgoto e milhões não têm banheiro em casa. Vale reforçar que as regiões menos atendidas por saneamento básico são predominantemente negras, pardas e indígenas, perpetuando o racismo ambiental.
Para além de números e estatísticas, essa realidade é sinônimo de:
Sem saneamento, sem saúde
A falta de água também afeta diretamente as grávidas e puérperas. Se não sai água da torneira, a solução muitas vezes é caminhar por quilômetros, com baldes pesados para coletar água em outro local, mesmo durante uma gestação. Esse esforço pode provocar abortos, prematuridade e deficiência em bebês. Mulheres nessas condições também têm maior propensão a desenvolver anemia e, pela água contaminada, podem apresentar dificuldades metabólicas e de absorção de nutrientes.
Sem água, sem dignidade menstrual
A UNICEF constatou que, por conta da menstruação, 62% das jovens brasileiras já deixaram de ir à escola e 73% já viveram algum constrangimento. No mesmo levantamento, 35% das estudantes afirmaram ter passado dificuldade pela falta de absorventes, água ou outro fator necessário para cuidar da higiene menstrual. Sem banheiro, sem chuveiro, sem acesso a absorventes, as meninas mais pobres evadem da escola e acabam presas em ciclos de pobreza apenas por… menstruar.
Sem o básico, sem tempo
As mulheres enfrentam a carga de cozinhar, cuidar das crianças e idosos, entre outros trabalhos de cuidado. Imagina fazer tudo isso sem acesso à água potável e à rede de esgoto? Realizar este trabalho tão volumoso sem acesso ao básico torna qualquer atividade remunerada inviável. Por seu papel como responsáveis pelo cuidado, as mulheres são as principais usuárias dos serviços de saneamento e todas as políticas públicas devem ser pensadas a partir delas.
Como mantém maior contato com doenças e água contaminada, são as que mais adoecem pela falta dele. Além disso, muitas vezes, percorrem longas distâncias para conseguir água de qualidade para as tarefas de cuidado.
“Onde não há saneamento, há mulheres sobrecarregadas, investindo todo seu tempo, seu corpo e sua saúde fazendo esse papel.” – Patrícia Hermínio, engenheira e professora
Esgoto não dá voto?
Se o saneamento básico é tão definitivo na vida e na economia, por que não avançamos? Será que falar sobre saneamento básico não dá voto? O que falta é só vontade política? Em 2024, nas eleições municipais, as propostas de campanha mais populares são voltadas para segurança, saúde, educação e soluções imediatas.
E o prejuízo é enorme: o Brasil perde R$ 13,5 bilhões por ano que seriam injetados na economia se as mulheres tivessem pleno acesso ao saneamento. Os números também apontam que milhões seriam economizados em saúde pública se o investimento em saneamento fosse mais efetivo. Mais estudantes permanecem na escola e avançam ao ensino superior quando têm condições sanitárias dignas e até a criminalidade urbana diminui quando há mais famílias saindo da linha da pobreza.
É difícil mesmo enxergar problemas tão profundos. Somos levados a lidar apenas com as consequências deles, sem questionarmos suas raízes.
Isso não significa que o problema é invisível. Além do Marco Legal do Saneamento, que prevê água potável, coleta e tratamento de esgoto para toda a população, existem coletivos de mulheres e cidades inteiras no interior do Brasil tentando suprir a ausência do poder público. E a matemática também é a favor de agirmos: a cada real investido em políticas de saneamento, haveria ganho de R$ 4 para o Estado.
Saneamento básico é pauta feminista
Falar sobre saneamento básico é jogar luz na raiz de desigualdades históricas e buscar mais dignidade à vida humana, especialmente às mulheres. Estamos ampliando a conversa porque esse não é assunto apenas do poder público, mas também das escolas, espaços comunitários e iniciativa privada – uma vez que afeta a participação feminina no trabalho e na economia.
Na próxima vez que você abrir a torneira, vale pensar: todas as mulheres que eu conheço também têm esse direito? Provavelmente, a resposta será não — e, com isso, talvez você sinta vontade de fazer a sua parte para mudar essa realidade.
* Este conteúdo contou com o apoio de Letícia Cassiano.