Você sente culpa quando compra algo para si mesma? Já foi julgada por querer uma roupa nova ou fazer um tratamento estético? E já reparou como o seu shampoo custa mais caro que o masculino? Tudo isso tem nome, sobrenome e razão de ser. Aqui, chamamos isso de “custo mulher”: a soma dos preços, visíveis e invisíveis, que pagamos só por existir e por tentar ser aceitas.
No estudo Elas Pagam a Conta, do Lab Think Olga e Think Eva, exploramos esse conceito investigando a pink tax (taxa rosa), o incentivo ao consumo supérfluo ou constante no universo feminino, as pressões estéticas que vivemos e a dificuldade de acessar crédito para além do consumo imediato.
Reunimos aqui o que você precisa saber sobre o assunto para refletir sobre o seu próprio dinheiro e sua autonomia financeira.
Estereótipos que custam caro
O consumo masculino costuma ser associado à conquista, ao investimento ou ao merecimento. Já os gastos femininos são frequentemente classificados como exagerados, emocionais ou supérfluos. Para ele, consumir é reconhecimento do sucesso e das próprias paixões. Para ela, é visto como fútil ou desnecessário.
São estereótipos como esse que ajudam a sustentar a ideia de que as mulheres precisam de um homem para controlar ou administrar suas finanças — reforçando a dependência econômica e corroendo sua autonomia sobre o próprio dinheiro. Um processo de infantilização e tutela.
Mesmo ganhando o próprio dinheiro, mulheres frequentemente se cobram, ou se martirizam, quando compram algo para si. O estereótipo da cuidadora abnegada alimenta a crença de que tudo bem gastar com os outros, com o bem-estar do marido e dos filhos, mas que gastar consigo mesma ainda é egoísmo.
E essa culpa persiste mesmo sendo elas as mais cobradas pelos padrões estéticos que empurram, necessariamente, ao consumo: juventude, magreza e beleza artificial, com um preço sempre crescente.
“Eu não sei como é com vocês, mas também sentem uma culpa muito grande quando compram alguma “bobagem”? Parece que estou fazendo algo de errado, que poderia ter usado aquele dinheiro para algo produtivo, ou que poderia ter guardado…
Mulher da Comunidade Think Olga
A taxa rosa e a pressão de estar sempre “bem e bela”
A pink tax (taxa rosa) é a prova mais concreta de que pagamos caro pelo simples fato de ser mulher. O termo descreve como o mercado cobra mais caro por produtos praticamente idênticos aos masculinos, só porque foram pensados, ou pintados – geralmente de rosa – para elas. No Brasil, uma pesquisa da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) mostrou que produtos femininos custam em média 12,3% a mais que os equivalentes masculinos; lâminas de barbear chegam a custar o dobro. Um levantamento do Procon-MT em Cuiabá encontrou diferenças de até 50% entre versões femininas e masculinas do mesmo item, com destaque para recargas de lâminas (51% mais caras), mochilas escolares rosa (30% a mais que as azuis) e estojos femininos (20% a mais).
A discriminação de preço não para na prateleira: ela também aparece nas tarifas de importação, que globalmente são 0,7 ponto percentual mais altas para produtos femininos. No vestuário americano, as taxas de roupas para mulheres são cerca de três pontos percentuais mais altas.
Existe também um custo que não aparece em nenhuma nota fiscal: o da autoimagem. Desde pequenas, somos cobradas pela nossa aparência, corpo e juventude. Os padrões e as pressões estéticas são parte da validação social e profissional – da maquiagem, roupa e cabelo aos procedimentos no corpo e na pele. A jornalista e escritora Naomi Wolf descreveu, em O Mito da Beleza, que esse padrão – impossível para a maioria – substitui formas antigas de controle. Além de consumir nosso tempo e dinheiro, mexe com a autoestima e a saúde mental E não é coincidência que isso aconteça no mesmo momento em que passamos a conquistar mais espaço e poder na sociedade.
No fim, ser mulher também significa arcar com uma série de custos invisíveis impostos por expectativas culturais e de gênero.
O crédito feminino é para o consumo,
o masculino é para prosperar
Somos empurradas ao consumo, cobradas pelo nosso corpo e ganhamos cerca de 21% a menos que os homens (uma lacuna que só aumenta ano após ano). Além do dinheiro que entra ser menor, o acesso ao crédito também é desigual.
“Para o homem, o crédito é alavancagem, um jeito de crescer.
Para a mulher, o crédito é dívida.”
Daniela Carvalho, especialista e criadora do método Dinheiro é Meio
As mulheres têm histórico de boas pagadoras e, por isso, o mercado financeiro oferece crédito de consumo com juros altos: parcelamento de loja, cartão, carnê. Mas quando essa mesma mulher pede crédito para empreender, para investir no próprio negócio, os obstáculos aparecem.
Os números confirmam: 47% das empreendedoras dizem ter dificuldade para obter crédito, e 85% já tiveram algum pedido negado. Quando conseguem, pagam mais caro por isso: a taxa média de financiamento contratada por mulheres foi de 40,6% ao ano, contra 36,8% entre donos de pequenos negócios em geral.
“Em geral, são exigidas garantias maiores do que para os homens e, mesmo quando apresentam essas garantias, ainda enfrentam mais barreiras. E o mais contraditório é que o dinheiro emprestado para mulheres, especialmente em negócios liderados por elas, costuma ter maior taxa de retorno. Ou seja, mesmo sendo, em muitos casos, um investimento mais seguro, o acesso continua mais restrito.”
Dirlene Silva, economista e especialista em finanças e gestão estratégica
A lógica de empréstimo e crédito reafirma um padrão: enquanto os homens conseguem acessar ferramentas para construir patrimônio e prosperar com facilidade, as mulheres seguem sendo afastadas da sua autonomia financeira ao terem esse mesmo acesso negado ou dificultado. Elas seguem sendo empurradas ao consumo e aos papeis históricos que tentam lhe impor: seja bela, seja feminina e não se preocupe com dinheiro ou números.
Reconhecer o “custo mulher” é o primeiro passo para não naturalizar as taxas e os impostos que pagamos. Também é um movimento para repensar nossa relação com o consumo e com o que é exigido de nós. Desejamos essa roupa ou o desejo foi induzido? Aquele corpo é saudável e factível com o meu biotipo e estilo de vida? Fora da Internet, consigo reduzir esses problemas e estímulos?
Só começando a refletir e responder essas perguntas podemos caminhar ativamente em direção à autonomia financeira.
Conheça o estudo Elas Pagam a Conta aqui.
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