Ver o líder de uma das maiores potências do mundo em guerra aberta aos programas e iniciativas de DE&I é ver, mais uma vez, o privilégio branco, masculino e classicista ser colocado em primeiro lugar. Mais que isso: é continuar negando desigualdades históricas e fugindo da responsabilidade de corrigi-las.
O recém-empossado presidente norte-americano Donald Trump deu declarações contra políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão. O cenário é preocupante e merece atenção, mas precisamos cuidar do desespero generalizado que vem se instituindo no debate público – especialmente no Brasil. Em uma primeira camada, cabe um olhar crítico para não nos distrairmos com uma guerra de narrativas que busca colocar os “defensores” de DE&I como inimigos do crescimento e da prosperidade dos negócios. O tradicional “nós contra eles” que assistimos em tantas outras pautas capturadas pelos extremos políticos. É importante continuarmos focados e comprometidos. Não estamos negando que a onda vai além do discurso: desde 2022, cortes nos programas de DE&I em big techs pioneiras no tema, decisões da Suprema Corte contrárias às históricas políticas afirmativas do país, movimentos antiwoke e as recentes declarações de Trump enfraqueceram a pauta entre muitas lideranças.
Mas não podemos esquecer que o Brasil tem um contexto próprio que não precisa replicar discursos e práticas norte-americanas. Nossa população é majoritariamente negra e feminina, nossa legislação é sólida e antidiscriminatória e a interação entre movimentos sociais e empresas é intensa. Aqui, além do histórico de leis para a igualdade – como a Lei de Cotas, aprovada em 2012 – seguimos promovendo a garantia de direitos e a responsabilidade empresarial sobre diversidade. Na prática, temos a Lei Emprega Mais Mulheres, a Lei de Igualdade Salarial e a Lei de Identificação Étnico-Racial.
O que precisamos reforçar, diante de líderes globais ou bilionários religiosos que tentam frear os avanços pressionando as políticas internas das empresas, é que investir em DE&I não é bom apenas para as pessoas que passam a pertencer ao sistema de trabalho, mas essencialmente aos negócios, à economia e à toda sociedade. É ter mais inovação, sustentabilidade e condições de bem-estar dentro e fora da empresa.
Nos próximos anos, o foco é chegar justamente nessas ações efetivas e mensuráveis, fruto de todas as estruturas e condições criadas até aqui. Ações que movem o ponteiro dentro e fora das empresas, reduzindo as desigualdades e promovendo um impacto econômico e social que é sentido na vida de milhares de pessoas. É nessa direção, focada e consciente, que as empresas brasileiras precisam estar. Chegando lá, temos potencial para ser, cada vez mais, inspiração, referência e farol ao restante do mundo.