Na direção: o perfil e os desafios das mulheres motoristas de aplicativo

Você acorda cedo, abastece o carro, checa se está tudo bem e parte para a primeira corrida do dia. Entre um passageiro e outro, come em algum lugar, passa em casa de vez em quando e segue viagem. 

Essa é a rotina de mais de 1,7 milhão de motoristas de aplicativo no Brasil, dos quais a grande maioria são homens, já que as mulheres ainda sentem medo de circular no espaço público por causa de problemas relacionados à segurança, violência no trânsito e falta de iluminação nas ruas, por exemplo.

Ao longo de 2025, a 99 está se dedicando a conhecer mais sobre a realidade de suas motoristas e passageiras, que ainda são pouco valorizadas no setor de mobilidade. A ideia é fortalecer a comunidade feminina, aprimorar as ferramentas do aplicativo e ampliar o negócio. Para ajudar nesse caminho, nós, da Think Eva, mapeamos quem são essas mulheres, os seus contextos e os desafios que elas enfrentam nas ruas

Em pesquisa inédita com motoristas de diferentes regiões do Brasil como São Paulo, Salvador e Porto Alegre, mostramos como as desigualdades de gênero no mercado de trabalho e na sociedade também operaram na vida delas e conhecemos estratégias individuais de segurança que elas adotam para conseguir trabalhar e atingir suas metas diárias. No fim, levamos um cardápio de iniciativas práticas que a 99 pode colocar em prática para gerar impacto positivo na vida das motoristas

Abaixo, você confere os principais destaques do levantamento.

 

Cuidado e rotina de mulheres motoristas

Seja por causa de um divórcio, o nascimento de um filho ou uma demissão, as mulheres que se tornam motoristas geralmente tomam essa decisão a partir de um evento difícil. Elas não sonham em dirigir, mas encaram esse trabalho com um forte espírito empreendedor, guiado pela necessidade de pagar as contas e garantir o sustento da família. 

Nosso estudo mostrou que 66% das motoristas entrevistadas já passaram dos 40 anos de idade, época da vida em que questões como o etarismo no mercado formal e a sobrecarga com o trabalho de cuidado costumam pesar mais. Vistas como o pilar da família, 7 em cada 10 motoristas têm filhos para criar e apostam na flexibilidade e a autonomia que os apps oferecem para conseguir atender às necessidades da maternidade. 

Ainda que a proposta dos trabalhos por aplicativo seja para um complemento de renda, pelas desigualdades sociais e de gênero do Brasil, para elas, dirigir acaba se tornando a principal fonte de renda.

“Eu não tive nenhum tipo de influência, fui pela coragem mesmo, tinha dois filhos pra criar e era isso.”

– Motorista, Salvador

Mas o trabalho delas não acaba quando o carro é estacionado. 

A sobrecarga feminina é presente e constante. Como parte da geração sanduíche, responsável por cuidar dos pais e dos filhos/netos ao mesmo tempo, 49% dessas mulheres encaram uma jornada de trabalho que vai muito além das corridas na rua. Elas também dividem seu tempo entre os afazeres domésticos e os cuidados com os parentes, sendo obrigadas a lidar com o impacto disso na própria saúde física e emocional.

Elas dirigem a casa, a rua e a renda

Segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, 36 milhões de mulheres são as principais responsáveis pelo sustento de suas famílias hoje em dia. Se colocarmos na ponta do lápis, isso quer dizer que em quase metade dos lares brasileiros existe uma figura feminina que é tanto provedora quanto cuidadora. 

No entanto, muitas delas, mães acima dos 40 anos, enfrentam descriminação no mercado de trabalho formal, sofrem com a desigualdade salarial e são impedidas de progredir em suas carreiras.

“Comecei por necessidade mesmo. eu me vi desempregada, mercado fechado e não tinha muito o que fazer.” – Motorista, Belo Horizonte

“O nível salarial tem sido muito baixo para minha área. Eu tinha um salário de 4 mil reais e não consigo mais isso. Facilidade, mobilidade, tenho 2 crianças que eu tenho que pegar e levar para a escola.”Motorista, SSA

Como solução, as mulheres enxergam em plataformas como a 99 uma alternativa mais viável às suas demandas. Para 78% delas, esse trabalho é uma opção pela flexibilidade de horário que oferece. Além disso, 73% destacam a importância do ganho financeiro imediato: dá pra trabalhar e receber na mesma hora.

Atraídas pela conveniência dos apps, elas acabam no negócio por necessidade e aprendem na prática a lidar com desafios como a falta de segurança (dentro e fora do carro!) e infraestrutura.

Ser mulher é viver na insegurança

Assim como todas as mulheres, as motoristas se deparam diariamente com o medo. Para 76% delas, ser mulher resulta em mais riscos para trabalhar. O perigo existe e é percebido por quase todas.

Ao contrário dos homens que, geralmente, podem circular durante a madrugada, parar em postos de gasolina para abastecer e ir ao banheiro ou aceitar corridas sem medo de sofrer algum tipo de assédio, as trabalhadoras estão sempre em alerta. Do embarque até o fim da viagem, elas se preocupam com tentativas de assalto, sequestro, violência sexual e assédio moral por parte dos passageiros ou de quem está na rua. 

“Já quiseram me tirar do carro para poder fazer sexo a 3 e eles foram me puxando mesmo. Já passaram a mão na minha perna, homem na frente. Já me cheiraram por trás. Diversas situações de assédio e você está exposta.” – Motorista, Fortaleza

O sentimento de vulnerabilidade é comum às passageiras também. Entre as motoristas entrevistadas, 93% percebem que as passageiras se sentem mais seguras quando descobrem que outra mulher está ao volante. Seja em uma viagem longa ou curta, isso significa que, provavelmente, não haverá preocupações com portas travadas, janelas fechadas, mudanças de rota inesperadas e comportamentos invasivos.

“Falam que se pudesse escolher seriam as mulheres motoristas. Muitas falam de assédios por conta dos homens, que não respeitam, que são invasivos e elas têm medo de serem levadas a algum lugar e serem estupradas e mortas.– Motorista, Fortaleza

Essas são só algumas das descobertas valiosas para o setor de mobilidade dar passos importantes em direção à uma realidade mais segura para as profissionais da área e suas passageiras.

Comunidade feminina com inteligência

Trazer a lente de gênero para dados e pesquisas significa transformar serviços, ampliar oportunidades de negócio, promover inovação e gerar impacto positivo na vida das mulheres. É para isso que a área de Inteligência da Think Eva existe. 

 

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