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Mulheres e dinheiro: a responsabilidade aumenta, a renda não

Mesmo com as desigualdades, elas são ativas na gestão financeira de casa. Mas já tem empresas buscando soluções para fortalecer as mulheres no trabalho.

 

As mulheres são vitais para as finanças das casas brasileiras: segundo a FGV, entre 2012 e 2022, a proporção de mulheres que chefiavam os lares do país saltou de 36% para 51%. Mas quando falamos de mulheres e dinheiro, precisamos aprofundar o olhar para entender as estruturas sociais que afetam suas realidades.

“Sou a provedora do lar desde o meu divórcio há quase 15 anos.”
Relato de uma mãe solo, 43 anos, supervisora administrativa 

 

“Meu marido foi desligado e eu o estimulei a voltar a estudar (…) Aí fizemos um acordo: eu seria a provedora, ele faz uns bicos e poderia ir pagando as contas menores.”
Relato de uma mulher de 36 anos, designer

 

Mas, associado à falta de apoio e educação financeira, esse crescimento aumentou o risco de vulnerabilidades sociais provocadas principalmente pelo endividamento feminino. É o que revela a pesquisa “Relevância das Mulheres nas Finanças das Famílias Brasileiras”, realizada pelo Serasa em 2024. Os dados mostram que no Brasil:

  • 93% das mulheres têm participação ativa nas finanças de suas famílias, e metade delas é a única ou a principal provedora do lar;
  • 71% delas já precisou complementar a renda com trabalhos adicionais;
  • 74% já solicitou crédito a instituições financeiras em momentos de aperto, mas não conseguiu;
  • 8 em cada 10 já esteve inadimplente.

As finanças femininas são amplamente prejudicadas pelas desigualdades de gênero, como a disparidade salarial entre homens e mulheres e a má divisão do trabalho de cuidado. Ambos os fatores restringem os ganhos e as possibilidades da população feminina desenvolver estratégias para o melhor aproveitamento do dinheiro em mãos, o que tende a piorar entre as mulheres pobres.

 

“O meu maior desafio é a questão da pressão no trabalho. (…) Quando somos nós mulheres a provedora, tem toda uma questão assim, exemplo, eu trabalho com tecnologia e é muito mais difícil pra mim – mulher – conseguir uma aprovação, um aumento. É muito mais fácil para os homens que estão lá dentro conseguirem essas coisas.
Relato de uma mulher de 36 anos, designer

 

Em 2023, o relatório Esgotadas do Lab Think Olga mostrou que a falta de dinheiro e a sobrecarga de trabalho são os problemas que mais afetam a saúde emocional das brasileiras. O endividamento também pode causar sobrecarga mental e afetar a capacidade cognitiva de desenvolver e tomar decisões estratégicas para enfrentar problemas no dia a dia. Além disso, as tensões que envolvem mulheres e dinheiro geram problemas nos relacionamentos familiares e elevam os riscos sociais entre mulheres, dificultando o acesso a mecanismos garantidores de direitos e aumentando a insegurança alimentar e a violência doméstica.

 

“Sou a principal provedora do lar desde o meu divórcio, há quase 15 anos. Desde então trabalho, estudo e faço renda extra. Já busquei anteriormente um empréstimo em instituições, mas não consegui. Já trabalhei informalmente por alguns anos. Voltei ao CLT em 2023, porém a carga de trabalho já me causou burnout, depressão e ansiedade pelo menos 3 vezes durante minha jornada.”
Relato de uma mãe solo, 43 anos, supervisora administrativa

 

Boa parte dos brasileiros não consegue acessar informações sobre finanças para manter uma relação saudável com o dinheiro – e os estereótipos de gênero aumentam as barreiras para as mulheres. Ainda assim, elas representam mais da metade das pessoas que negociam as dívidas nos Serasa, e 9 em cada 10 buscam informações sobre finanças e economia. Contudo, a solução efetiva para o endividamento feminino é o aumento do emprego e renda, que em 2023, encerraram o ano com as maiores taxas de desemprego do país. Além disso, segundo o DIEESE, 37% das brasileiras estão na informalidade, onde há maior flexibilidade para conciliar vida dentro e fora do trabalho, mas menores rendimentos. Nos empregos formais, elas recebem 19% menos que os homens.

 

“Outra coisa é a insegurança. Eu era CLT e não sou mais. Antes, tinha a questão da segurança CLT. Ser mulher e poder engravidar faz com que a gente não tenha a confiança das altas lideranças nas empresas, que não nos dão os melhores desafios, temos que brigar muito e trabalhar muito mais que os caras para conseguir reconhecimento.”
Relato de uma mulher de 36 anos, designer

 

As novas leis para erradicar as desigualdades de gênero e fomentar a presença de mulheres no mercado de trabalho criaram mecanismos corretivos importantes. Além delas, algumas empresas já mostraram proativamente que é possível se tornar aliadas das mulheres que chefiam as casas brasileiras sendo inventivas e inovadoras a partir de um mesmo princípio – assumindo o compromisso inegociável com o cuidado: 

  • A Natura foi uma das primeiras empresas a acabar com a disparidade salarial ainda em 2022, e substituiu o salário mínimo pelo salário digno para todos os funcionários da América Latina, baseando seu cálculo nos custos de vida de diferentes regiões. 52% das lideranças brasileiras também são mulheres.
  • Desde 2013, a Serasa Experian adotou a jornada flexível – uma janela de 3h para entrada e saída dos funcionários, além da possibilidade de trabalhos híbridos e remotos –, que ajudou 90% dos pais e mães da empresa.
  • O Grupo Boticário estabeleceu desde 2021 a licença parental universal de 120 dias obrigatórios – por lei, homens acessam apenas cinco dias de licença-paternidade – Também lançou em 2023, em parceria com outras instituições e organizações um guia de boas práticas para que as empresas adotem a licença paternidade estendida.
  • O movimento Coalizão Licença Paternidade atua, pela regulamentação da licença estendida, remunerada e obrigatória, que, atualmente, dura menos que o carnaval.

Ao reconhecer o impacto do cuidado no ciclo de endividamento e pobreza das mulheres, empresas podem apoiar a igualdade de gênero através do esforço coletivo pela erradicação das desigualdades. Como sua empresa tem apoiado o desenvolvimento econômico das mulheres?

*Este conteúdo contou com a colaboração de Rubiana Viana.

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