Se você frequenta as redes sociais ou os jornais, com certeza já ouviu que a Inteligência Artificial vai “roubar todos os empregos” em pouco tempo. Entre o hype das novas ferramentas e o medo do desemprego em massa, ainda existe um longo percurso – mas na carreira das mulheres os impactos já começaram.
O relatório mais recente da Anthropic (2026) confirma que a “revolução da IA” está redesenhando aos poucos a entrada e a permanência no mercado. Para as mulheres, um sinal de alerta: suas profissões estão mais expostas à IA. Estamos falando principalmente de cargos administrativos, como organização de documentos, suporte ao cliente e funções de nível de entrada no setor tecnológico. Essas são áreas que a IA já consegue automatizar e atuar com autonomia. O estudo também mostrou que as tarefas que são mais cobertas pela IA têm 16 pontos percentuais a mais de probabilidade de serem realizadas pelo sexo feminino.
Sabemos de todas as limitações do relatório da Anthropic, que olha para uma base de profissionais dos EUA e para dados do Claude. Por isso, fomos entender o que diz a OIT (Organização Internacional do Trabalho), que também destaca: ocupações dominadas por mulheres têm exposição significativamente maior à automação em comparação com as masculinas. Diferente das ondas anteriores onde o trabalho manual era substituído, essa é uma revolução cognitiva, onde o próprio conhecimento passa a ser automatizado.
“Trabalho com criação e tem cliente que vê a IA como substituição do profissional criativo, e é o mesmo cliente que, antes da IA, já não queria pagar bem esse tipo de serviço. Mas existe uma mágica, uma autenticidade na criação. A IA não consegue ser criativa, ela repete padrões. Então se você quer um texto ou uma arte só para cumprir tabela, tudo bem, ela entrega. Mas se você quer algo autêntico, precisa de pessoas. Eu tenho usado a IA como ferramenta e não como produto final. A ideia, o ato de criar, a entrega, ainda precisa ser humana.“ – Mulher, 35 anos, São Paulo (SP)
“Assim que o ChatGPT foi lançado, lá em 2022, o meu trabalho já foi diretamente impactado. Claro que tem gente que entende o valor de um texto humanizado, mas são raríssimos. No geral, o copywriter/redator foi muito desvalorizado. E a gente que é mulher é mais impactada ainda, até pela questão da idade. Vou fazer 35 anos, então estou na fase de “vai ou racha” de ter filhos. De um lado é a pressão social para a maternidade e, do outro, você já está “morta” no mercado de trabalho. E com tudo isso, veio minha ideia de transicionar para a psicologia, que é um trabalho que ainda demanda uma mente e compreensão humanas.” – Mulher, 34 anos, Rio de Janeiro (RJ)
O aprendizado e o uso ético da IA
Todo o cenário expõe a necessidade de um letramento digital voltado para a IA, onde somos capazes de analisar as tarefas que estão sendo executadas e, acima de tudo, desenvolver nossa capacidade crítica. Também mostra a responsabilidade das empresas nessa história. Mais do que estarem abertas à experimentação, precisam investir em formar pessoas para um uso ético da IA em que humanos validem e controlem o trabalho das tecnologias. Mas esse aprendizado extrapola o mercado de trabalho. Com os avanços que ainda veremos, precisamos começar já na escola, com crianças e adolescentes.
“Letramento midiático e letramento em IA são fundamentais, mas não só. (…) Coisas como voltar a escrever à mão e trabalhar mais a elaboração de conhecimento expressado oralmente, por exemplo, são fundamentais. Também precisamos formar pessoas capazes de tomar decisões complexas com ética, que tenham desenvolvido raciocínio crítico e analítico, mais do que conhecimento instrumental. Precisamos ensinar os jovens a aprender.” – Ana Freitas, especialista no IA em Curso e criadora de conteúdo no @anacron.ia
Apesar da importância de dominar as ferramentas no curto e médio prazo, hoje as mulheres estão em um ritmo de adoção mais lento da IA generativa. Uma análise da Harvard Business School mostrou que elas usam cerca de 22% menos ferramentas do que os homens. No levantamento, as mulheres representavam:
- 42% dos usuários do ChatGPT
- 42,4% dos usuários do Perplexity
- 31,2% dos usuários do Claude/Anthropic
“Quando se investiga o porquê, aparece o que minha experiência ensinando IA também mostra: a hesitação das mulheres em adotar IA generativa está ligada não só a uma aversão maior das mulheres a tomada de riscos (risco de a ferramenta errar, risco de mudar a maneira já conhecida e validade de fazer as coisas etc), mas também os riscos relacionados a preocupações éticas e sociais mais amplas, uma consciência maior do potencial da IA de causar dano a outras pessoas ou à sociedade.” – Ana Freitas, especialista no IA em Curso e criadora de conteúdo no @anacron.ia
Barreiras novas e históricas
O teto de vidro que sempre existiu na vida profissional das mulheres agora também é digital. E as barreiras estruturais, já enfrentadas historicamente, continuarão sendo um gargalo na carreira delas. Enquanto homens ocupam, proporcionalmente, mais cargos de infraestrutura técnica ou liderança estratégica, as mulheres seguem na linha de frente da substituição. Enquanto elas estudam e se qualificam mais, parte do seus conhecimentos são absorvidos e automatizados pela IA.
“Quem está usando as ferramentas de IA no dia a dia? Quem NÃO está usando e por quê? Essas perguntas simples podem guiar os negócios para que não ampliem as desigualdades já existentes na sociedade. Mais ainda, indicam caminhos para realizar um potencial humano que está, desde sempre, à margem.” – Maíra Liguori, diretora da Think Eva no estudo Adoção Ética e Estratégica de IA no Trabalho Corporativo, com a Inesplorato
Também vale destacar que o impacto é geracional. A Anthropic aponta uma queda de cerca de 14% nas taxas de entrada de jovens (22 a 25 anos) em ocupações mais expostas à IA. Para as mulheres jovens que estão começando a carreira em cargos operacionais, essa porta está se fechando rapidamente.
No fim, a tecnologia por si só não é boa ou ruim, mas sim um espelho das nossas estruturas. E nenhum ChatGPT ou gerador de códigos será capaz de redesenhá-las. Esse trabalho ainda cabe a nós.