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Matriarcado da miséria: em 10 anos teremos nosso primeiro trilionário, mas milhões de mulheres estarão na pobreza

A má distribuição das riquezas está criando um abismo social preocupante e, a cada ano, menos reversível.

 

Organismos internacionais alertam há décadas que as mulheres são mais afligidas pela miséria e fome em comparação aos homens, principalmente entre grupos étnicos-raciais vulneráveis. A gravidade da situação fez a filósofa Sueli Carneiro utilizar a expressão “matriarcado da miséria”, criada pelo poeta Arnaldo Xavier, para descrever a forma como mulheres não brancas eram vitimadas por esse fenômeno no Brasil. E a desigualdade econômica global cresceu tanto que, em pouco tempo, a miséria pode ser caminho sem volta – e sobretudo, feminina. É essa a conclusão do relatório “Desigualdade S.A.” da Oxfam, publicado em janeiro deste ano. 

Segundo o relatório, desde 2020, a fortuna dos cinco maiores bilionários do mundo mais que dobrou, enquanto 60% da população mundial ficou mais pobre. No Brasil, 1% mais rico concentra 50% da riqueza do país, enquanto 60% dos brasileiros sobrevivem com menos de um salário mínimo. Salários insuficientes reforçam antigas desigualdades entre homens e mulheres e criam novas disparidades: segundo o Pnud, quase 30% de todas as mulheres da América Latina vivem em pobreza multidimensional. Além disso, 1 em cada 3 brasileiras negras ou pardas vivem na mesma situação, e 63% das casas chefiadas por elas estão abaixo da linha da pobreza. Nesse ritmo, serão necessários 230 anos para acabar com a pobreza mundial, mas teremos nosso primeiro trilionário, um homem, em apenas 10 anos. 

Nos últimos anos vivemos uma pandemia, guerras, um aumento no custo de vida e o início do colapso climático. Cada crise aprofundou ainda mais o fosso entre os super ricos e o restante da população mundial, mas para a Oxfam, a origem das desigualdades está na riqueza e no poder de influência gerado pelo monopólio das grandes empresas, que ocorre de três formas principais:

  • Concentrando o lucro nas mãos de poucos

Nos últimos dois anos, dois terços de toda a riqueza gerada no mundo foi acumulada entre o 1% mais rico. A forma como os lucros são divididos tem impacto direto na manutenção da desigualdade, pois para aumentar a margem que é direcionada aos acionistas, as empresas usam seu poder de influência e forçam a redução dos salários, causando impactos sociais e econômicos. Esse movimento fez o salário de 791 milhões de trabalhadores do mundo ficar abaixo da inflação em 2022. como as mulheres estão sobrerrepresentadas nos empregos mais precários e de pior remuneração, isso piorou sua condição de pobreza.

“Levaria 1.200 anos para uma trabalhadora do setor de saúde ganhar o que um CEO de uma das 100 maiores empresas da lista da Fortune ganha em média por ano.” Oxfam, 2024

Além disso, apenas uma em cada três empresas no mundo são comandadas por mulheres. Ter mulheres acionistas nas organizações aumenta a probabilidade delas ocuparem cargos executivos, mas a baixa representação cria barreiras à participação feminina em níveis hierárquicos mais altos, corroborando para desigualdades de gênero. O relatório da Oxfam mostrou que os homens possuem 105 trilhões de dólares  a mais em patrimônio do que as mulheres, e essa diferença é quatro vezes maior que a economia dos Estados Unidos.

  • Influenciando a política e a administração pública

Dos bilionários listados pela Forbes, 11% seguiu carreira política, e um estudo da Universidade de Cambridge mostrou que projetos de lei apoiados por pessoas ricas tiveram mais chances de serem implementados do que aqueles apoiados pelos pobres. Segundo a Oxfam, através desse poder de influência, grandes monopólios se opuseram a políticas que beneficiam trabalhadores apostando em formas de emprego atípicas, como a terceirização, o trabalho temporário e o parcial – barreiras à igualdade econômica e de gênero.

Como resultado, há cada vez mais empregos informais, desprotegidos e com rendimentos baixíssimos, em que mulheres representam, mundialmente, 52% dos trabalhadores. Elas são forçadas a recorrer a esse mercado em função da flexibilidade, uma vez que são as principais responsáveis pelo trabalho de cuidado não remunerado, o principal subsídio à economia mundial, gerando cerca de 10,8 trilhões de dólares todos os anos – três vezes mais do que a indústria global de tecnologia. Apesar disso, apenas 24% das maiores e mais influentes empresas do mundo têm compromisso público com a igualdade de gênero, e consequentemente, com a economia do cuidado.

Na ausência de reconhecimento, resta o ônus econômico. Em 2019, elas ganharam apenas 51 centavos para cada dólar obtido pelos homens no trabalho. Em 2020, a pandemia retirou 800 bilhões de dólares em renda das mulheres de todo mundo. E nos últimos 30 anos, a renda estimada delas cresceu somente 5%.

  • Impulsionando a crise do clima

“O 1% mais rico do mundo emite tanta poluição de carbono que os dois terços mais pobres da humanidade.” Oxfam, 2024. 

Bilionários lucram com processos que emitem gases do efeito estufa, e o colapso climático que eles impulsionam aumenta dramaticamente a desigualdade no mundo. Só em 2022, os deslocamentos causados por catástrofes climáticas forçaram 32 milhões de pessoas a migrarem, prejudicaram a agricultura e contribuíram para a fome, conflitos e crises humanitárias – condições que se agravam pelas lentes de gênero.

Mulheres pobres que não acessam direitos básicos como moradia digna, saúde e assistência têm menos chances de sobreviver a catástrofes relacionadas ao clima, e estão mais vulneráveis aos efeitos decorrentes do estresse térmico. No Brasil, as mulheres negras foram as mais afetadas pelas ondas de calor extremo e doenças decorrentes, sendo 55% das que contraíram dengue, por exemplo. A ONU afirma que até 2050, as mudanças climáticas irão empurrar mais de 158 milhões de meninas e mulheres para a pobreza e 236 milhões à fome

Um futuro em que mulher e pobreza não sejam sinônimos

Para a Oxfam, a criação de leis para paridade salarial entre homens e mulheres e para eliminação de todas as formas de discriminação, violência e assédio; a responsabilização de empresas pela criação de políticas de gênero, e o apoio ao cuidado em suas diversas esferas, abraçando a diversidade em organizações públicas e privadas são premissas fundamentais para combater a desigualdade econômica e de gênero. No GT pelo Empoderamento de Mulheres do G20, a Ministra das Mulheres Cida Gonçalves estabeleceu parâmetros para a igualdade de gênero, enfrentamento à violência e misoginia e justiça climática, expondo a legislação do Brasil e dialogando com outros países. Ela também citou a Lei de Igualdade Salarial como uma importante estratégia de mudança, visto que só 2,6% das organizações do mundo divulgam informações sobre a proporção de salários entre mulheres e homens.

Empresas devem se reinventar realizando uma transição gradual para negócios equitativos de governança democrática, combatendo a desigualdade ao tomar decisões comerciais que considerem questões sociais urgentes. A Oxfam cita cooperativas locais e de trabalhadores, empreendimentos sociais e Empresas de Comércio Justo – uma organização mundial onde 52% dos CEOs são mulheres – como exemplos, assim como a representação de trabalhadores nos conselhos de acionistas: em 2018, 19% dos trabalhadores dos Estados Unidos tinham essa participação, e os empregados-proprietários que eram membros de grupos discriminados por raça ou gênero apresentavam renda salarial 30% e 17% mais elevada, respectivamente

Para reverter esse cenário, será preciso elevar o patamar de igualdade a nível global – papel de instituições públicas e privadas. 

*Este conteúdo contou com a colaboração de Rubiana Viana.

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