Será que as demandas pela igualdade de gênero foram “longe demais”? E os homens, estão sendo prejudicados pela busca da equidade? No Brasil, esse sentimento aparece com força no relatório International Women’s Day, feito com homens de diversos países pelo King’s College London e Ipsos. Por aqui, 70% dos homens dizem que estão sendo muito demandados para apoiar a igualdade, acima da média global de 46%.
Se por um lado parte os homens se sentem mais exigidos, por outro, a realidade mostra que ainda faltam mais de 130 anos para atingirmos a igualdade de gênero no mundo. Ainda assim, no Brasil, mais da metade deles acredita que já avançamos o suficiente.
O que está por trás dessa percepção?
Parte da resposta está nas transformações recentes que “tiram” os privilégios e controles historicamente masculinos. Nos últimos anos, comportamentos antes naturalizados passaram a ser questionados. Práticas de assédio, desigualdades no trabalho, violências simbólicas e físicas… Tudo isso passou a ser nomeado, denunciado e, cada vez mais, responsabilizado. O que antes era invisível ou tolerado, hoje é colocado em debate.
Para muitos homens, especialmente aqueles que cresceram com referências tradicionais de masculinidade, esse novo cenário pode ser percebido como perda de espaço, controle ou identidade.
Na contramão dos avanços, comunidades online e influenciadores que são parte do movimento “red pill” ganham eco ao reforçar discursos misóginos, desinformação e rejeição à mulheres e suas conquistas. Só no Telegram, existem grupos com até 220 mil usuários dedicados ao ódio contra as mulheres. No YouTube, 90% dos canais dessa natureza seguem no ar dois anos depois de terem sido mapeados. O efeito aparece cada vez mais cedo. São inúmeros casos e, entre os mais recentes, tivemos adolescentes de 14 e 15 anos de um colégio particular em São Paulo circulando uma lista de meninas “mais e menos estupráveis”.
“As redes sociais prometeram conexão, mas entregaram vigilância e violência. Combater discursos misóginos e violações online precisa ser uma prioridade ou seguiremos assistindo o padecimento e a morte das próximas gerações.” – Maíra Liguori e Nana Lima – Diretoras da Think Olga e da Think Eva
O que significa tudo isso na prática?
Na vida real, a maior parte das mulheres segue enfrentando desigualdades estruturais básicas:
- ganhar menos que homens exercendo a mesma função
- assumir a maior parte do trabalho de cuidado
- ter menos acesso a recursos e oportunidades
- enfrentar violências cotidianas dentro e fora de casa
Ou seja, não estamos falando de “exigir demais”, mas de ainda lutar pelo mínimo. Ao invés de reduzir o debate pela equidade, precisamos ampliar a conversa sobre masculinidades.
“Temos dois grandes desafios no campo das masculinidades. O primeiro é substituir a principal ferramenta que os meninos aprendem a usar para comunicar as suas emoções e se relacionar com o mundo: a violência. E o segundo é sermos bons referenciais de masculinidade para todos os meninos que estão à nossa volta. Para isso, vamos precisar rever nossos comportamentos e pensamentos equivocados sobre o que é ser homem.” – Andrio Robert – Mestre e Doutor em Educação – Líder Editorial do Instituto PDH