Quem são as empreendedoras brasileiras?

Enquanto discutimos se mulher pode ou não ser CEO, não enxergamos a real condição do empreendedorismo feminino no país

A presença das mulheres no empreendedorismo brasileiro cresce cada vez mais. O Relatório Técnico sobre Empreendedorismo Feminino mostra que, entre 2012 e 2023, a participação de mulheres saiu de 31% para 34% no mesmo período – um aumento tímido, mas contínuo. Elas representam um terço de todos os empreendedores do país e, segundo o Monitor Global de Empreendedorismo 2023, no ano passado, representavam 55% dos 47,7 milhões de empreendedores com intenção de entrar no mercado até 2026.

O aumento da participação feminina nos negócios tem sido comemorado por alguns especialistas, mas, antes de celebrar, precisamos entender os motivos. O que está por trás dos números e qual o perfil real das empreendedoras brasileiras?

 

Empreendendo para sobreviver

Para a maioria, empreender surge da dificuldade de se inserir no mercado de trabalho. Vejamos alguns dados recentes:

A flexibilidade também entra na conta. O mercado tradicional valoriza quem tem mais disponibilidade, mas como as mulheres dividem seu tempo com o trabalho formal e o de cuidado, acabam penalizadas. É o que acontece com as mães: mulheres com filhos pequenos têm 52% menos chances de participar do mercado de trabalho formal. As mães solo chegam a ganhar 40% menos do que os pais casados ou não. Hoje, mais da metade das empreendedoras brasileiras são as principais responsáveis pelo seu lar.

Pela dificuldade em se manter em trabalhos inflexíveis e na busca pelo sustento de suas famílias, o empreendedorismo, para a maioria das brasileiras, não é sobre startups, universo corporativo e cargos de CEOs: 65% não possui CNPJ e atua na informalidade e o rendimento médio dessas mulheres é de R$ 2.634, 30% menor do que a média dos homens.

 

Negócios em meio aos estereótipos de gênero

As mulheres trabalham em média 35 horas semanais nos seus empreendimentos e os homens, 43 horas. Isso não acontece por menos dedicação, mas devido à responsabilidade com o trabalho em casa e à dificuldade em conciliar a dupla jornada: 52% das donas de negócio são as chefes de seus domicílios e 87% trabalha por conta própria, ou seja, sem empregados e somente com auxílio de sócios ou familiares. Segundo o Data Sebrae, 75% das mulheres empreendedoras se sentem sobrecarregadas em ter que cuidar da empresa, dos filhos e de parentes. Entre os homens, o índice é de 55%.

Outro desafio é que as empreendedoras brasileiras têm maiores dificuldades na hora de acessar crédito financeiro, e pagam mais juros, em comparação aos homens: 

  • Em alguns estados, como no Rio de Janeiro, as taxas de juros para MEIs homens ficam em 47,96% ao ano, e para mulheres, 60,49%. 
  • Elas obtiveram apenas 29% do crédito disponível para pequenos negócios, enquanto os homens, 71%. Essa prática possui até nome: “risco mulher”, atribuída à possibilidade de inadimplência, que é de apenas 7% entre homens e mulheres. 

 

Chega de romantizar o empreendedorismo 

Alguns especialistas apontam que o aumento dos programas de incentivo ao empreendedorismo feminino teve forte impacto no cenário brasileiro. Em 2015, a informalidade entre donas de negócio chegava a 70%, e a maior formalização, ainda que tímida, reflete maior acesso a informação, capacitações e mentorias. Mas, para boa parte das mulheres, informação não é o problema, e sim, a falta de investimento e suporte.

 

“Mulheres empreendedoras não precisam de mais ofertas de cursos e formação; o que elas realmente precisam é de apoio financeiro, crédito acessível e incentivos que levem em conta sua realidade. Muitas delas já dominam o conhecimento necessário para tocar o negócio – aprendem cedo a registrar tudo, seja no caderno ou no celular. Elas sabem que não devem misturar o fluxo de caixa com as finanças da casa. Mas quando surge uma emergência, como o carro do marido ou cunhado que bate e precisa de conserto, o que elas podem fazer? Ela sabe que aquele dinheiro é para o negócio, mas precisa cobrir a necessidade familiar. Não se trata de más escolhas, mas das únicas escolhas possíveis.” – Nana Lima, cofundadora da Think Eva

 

Em entrevista para a Agência Sebrae, a diretora de Administração e Finanças do Sebrae, Margarete Coelho, afirma que a possibilidade de sucesso de uma empreendedora ultrapassa fatores econômicos, e que “há componentes estruturais que precisam ser reconhecidos, para o desenho e a implementação de ações, no âmbito público e privado”. Recentemente, o governo federal sancionou o Programa Acredita, uma linha de crédito para pequenos empreendedores, MEIs, inscritos no CadÚnico e até informais. Uma de suas frentes foca na oferta de crédito para mulheres empreendedoras aliado ao treinamento financeiro

Além disso, os ministérios do Empreendedorismo e da Mulher lançaram a estratégia “Elas Empreendem”, uma coalizão com órgãos e entidades da administração pública federal e bancos para promover o empreendedorismo feminino, priorizando mulheres inscritas no CadÚnico e os eixos de Educação, Tecnologia, Crédito e Mercado e Inclusão Produtiva.

Esses projetos são essenciais, mas ainda precisam ser implementados com eficiência, inspirando novos programas de aceleração de negócios, créditos para impulsionar iniciativas e parcerias que favoreçam grupos vulnerabilizados. Ter mais mulheres CEOs é importante, mas revolucionário mesmo será ter empreendimentos femininos mais prósperos e sustentáveis. 

*Este conteúdo contou com a colaboração de Rubiana Viana.

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