Estamos atrás de países como Equador, Etiópia e Bangladesh quando o assunto é igualdade de gênero. Segundo o Global Gender Index Gap, ocupamos a 70ª posição do ranking que avalia 146 economias. Entre os 22 países da América Latina, amargamos a 16ª posição.
Participação econômica e oportunidades
Um dos nossos piores resultados foi no eixo de participação econômica, onde a paridade ficou em 66,7%. A igualdade de gênero na participação na força de trabalho, cresceu menos de 1% desde o ano passado e continua 4,5% abaixo do seu melhor desempenho (77,2%) em 2021. A composição da força de trabalho brasileira tem hoje cerca de 11 milhões de homens a mais que mulheres, com a taxa de desemprego entre elas sendo 3,1% maior.
Existem diferenças significativas também quando as mulheres estão inseridas no mercado de trabalho. Isso porque:
- 33,2% das mulheres brasileiras estão em empregos de meio período contra 19,7% dos homens
- 35,3% das mulheres estão no mercado informal
- 51% são as principais responsáveis financeiras de suas casas
Esses números estão relacionados à desigualdade na responsabilidade pelo cuidado e a falta de sistemas de suporte, como a ausência de uma licença parental igualitária. Enquanto mulheres têm 120 dias, homens possuem apenas cinco. Esse tipo de inserção nos postos de trabalho afeta os ganhos monetários das mulheres e cria um ciclo que aprofunda vulnerabilidades: mulheres trabalham menos e, quando trabalham, recebem menos e estão em posições de maior risco social, ampliando abismos econômicos. Como resultado, a população feminina é maioria na pobreza e na extrema pobreza no país.
Como dado positivo, alcançamos a maior taxa de igualdade entre homens e mulheres em relação a lideranças seniores da série histórica, embora a presença delas nesses cargos ainda seja 20% menor. Outro ponto é que foi identificada uma disparidade salarial de 11,1% segundo o relatório internacional e quase 20%, segundo dados nacionais.
Podemos identificar preconceitos e estereótipos de gênero já na escolha das carreiras, com homens sendo maioria em áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Já elas, ocupam mais de 70% em áreas de cuidado e informação. Não por acaso, as áreas majoritariamente femininas também são as menos valorizadas.
Empoderamento político
Nesse critério, nossa média é tão baixa quanto à mundial com apenas 22%. Em 2023, chegamos a 26,3% pela maior representação feminina nos ministérios – foram 11 pastas chefiadas por mulheres ao todo no início do governo Lula. Hoje, representam 21,6% dos cargos e, no parlamento, somam apenas 17,5% dos representantes.
A baixa participação feminina tem relação com estereótipos que desassociam a imagem da mulher da política e pela falta de suporte nesses espaços. O Senado Federal, por exemplo, só teve seu primeiro banheiro feminino em 2016.Além disso, até hoje não existe regulamentação nacional sobre licença maternidade para as parlamentares do país.
O âmbito político é hostil às mulheres, abrigando violências que se baseiam em preconceitos de gênero, como o próprio processo de impeachment da única presidente mulher, marcado por diversos ataques misóginos. Segundo o Mapa da Violência Política de Gênero em Plataformas Digitais, 1 em cada 10 menções a parlamentares mulheres nas redes sociais tem algum tipo de violência misógina e 81% das mulheres já sofreram violência política de gênero, como assédio, ameaça e violência física, inclusive dentro do parlamento.
Tudo isso afasta mulheres da política e abre ainda mais espaço para o retrocesso, como recente caso do Projeto de Lei 1904/24 que equipara aborto realizado após 22 semanas a crime de homicídio, mesmo em casos de estupro. Ter mais lideranças femininas na política é priorizar políticas públicas contra a vulnerabilidade social e o fortalecimento de direitos.
Existem avanços, mas precisamos de muito mais
Quando olhamos para a educação e saúde, temos alguns pontos a celebrar. Os índices do primeiro eixo ultrapassam 99%, enquanto em saúde e sobrevivência chegamos em 98%. Ainda assim, se queremos alcançar a igualdade de gênero que nossas crianças e mulheres merecem, temos que corresponsabilizar e engajar todos os setores da sociedade. Viver em uma sociedade justa e com oportunidades é um dever coletivo e um direito de todas nós.
–
*Este conteúdo contou com a colaboração de Rubiana Viana.