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O novo mapa da desigualdade de gênero: os principais achados do índice global

Saiu o novo Global Gender Gap Report 2026, do Fórum Econômico Mundial, referência na análise da lacuna de gênero que mede essa distância em quatro dimensões: participação econômica e oportunidade, educação, saúde e sobrevivência, e empoderamento político. O estudo analisou 145 economias e mantém uma série histórica de 20 anos, o que nos permite enxergar não só o retrato do momento, mas também o movimento de longo prazo.


Quais os principais achados do Global Gender Gap 2026?

Tivemos avanços, ainda que a passos lentos. O mundo chegou a 69,2% da lacuna fechada, o maior nível já registrado, mas ainda estamos longe da paridade. No ritmo atual, o Fórum Econômico Mundial estima que o fechamento total da lacuna de gênero levaria 120 anos. Há progresso, mas o ritmo continua longe do ideal.

O segundo ponto é que o debate mudou de eixo. Durante muito tempo, a discussão sobre igualdade de gênero girou em torno de acesso. A pergunta era se as mulheres estavam entrando na escola, no trabalho, na política. Agora, o centro da conversa passou a ser outro: disputa de poder político, econômico e influência. O relatório deixa isso claro quando afirma que a próxima fase da igualdade dependerá cada vez mais de mobilidade econômica, alocação de recursos e capacidade de decisão. A entrada das mulheres já não é mais o principal obstáculo, o principal desafio é a permanência, a ascensão e o acesso aos cargos que realmente definem o rumo das organizações e vida em sociedade. 

A gente vem sentindo essa mudança na Think Eva e Think Olga também. Uma necessidade de ir além do recrutamento nas empresas e do letramento para as equipes e oferecer ferramentas e estratégias práticas para acelerar as carreiras femininas e prepará-las para navegar os cenários de influência e poder. 

Esse deslocamento aparece quando analisamos o mercado de trabalho e a liderança. As mulheres estão mais presentes na força de trabalho e avançaram em posições de chefia, mas continuam caindo à medida que a hierarquia sobe. O dado mais simbólico é o chamado “drop to the top”: da entrada até o C-suite, a presença feminina cai de 46% para 23%. 

Há também um detalhe menos óbvio: as mulheres seguem sub-representadas justamente nas posições que costumam funcionar como ponte para a presidência, como CFO e COO. Pesquisas já estão mostrando a falta de mulheres na diretoria financeira e de operações. Isso significa que, mesmo quando chegam à liderança, elas ainda não estão nos postos que mais frequentemente conduzem ao topo. É uma desigualdade profundamente estrutural.

Outro achado importante é o sinal de desaceleração. Segundo os dados de LinkedIn citados no relatório, o crescimento da presença feminina na força de trabalho e na liderança sênior estagnou desde 2022 e já mostra sinais iniciais de queda. O relatório sugere que parte do progresso conquistado na última década pode não se sustentar se a tendência atual continuar.

Uma das principais razões é o trabalho de cuidado. As mulheres continuam quase duas vezes mais propensas a fazer pausas de carreira, especialmente pelas responsabilidades de cuidado, e essas pausas costumam ser seguidas por uma retomada mais lenta da progressão. Esse ponto é importante porque mostra que a desigualdade não se explica apenas por contratação ou promoção. Ela também se produz fora da lógica formal da empresa, na divisão desigual do trabalho de cuidado e na penalidade que isso gera ao longo do tempo.

O Global Gender Report também olha para a economia da IA, que está reproduzindo as mesmas assimetrias de gênero já conhecidas em outros setores. As mulheres aparecem com mais peso em funções de anotação de dados, mas continuam muito menos presentes em desenvolvimento e implantação. A desigualdade, portanto, não está apenas no acesso ao mercado de tecnologia, está na distribuição interna das funções que constroem esse novo mercado. E ainda há outra camada. No empreendedorismo, o relatório identifica uma nova onda de fundadores impulsionada pela expansão da IA, mas a presença feminina continua estagnada em 28%. Além disso, uma proporção menor de fundadoras apresenta competências ligadas à engenharia de IA do que os fundadores. Isso é um alerta importante, porque mostra que a próxima fronteira de inovação pode nascer já marcada por desigualdade de gênero.

No campo político, o avanço existe, mas a distância continua enorme. O relatório destaca que a paridade política foi o subíndice que mais evoluiu ao longo de 20 anos, mas ainda assim apenas 22,1% da lacuna foi fechada. Educação e saúde estão praticamente próximas da paridade, enquanto economia e política seguem como os maiores gargalos. 


Como estão as questões de gênero na América Latina e no Brasil?

No nosso lado do mundo, o quadro é melhor do que muita gente imagina. A América Latina e o Caribe aparecem em terceiro lugar no ranking global e é a região que tem a trajetória mais rápida rumo à paridade, com projeção de fechamento da lacuna em cerca de 60 anos. Isso não significa igualdade, mas mostra que há alguns motores de mudança mais ativos na região, sobretudo em participação política e presença em cargos de liderança.

Já o Brasil aparece em 72º lugar no ranking geral, com 71,5% da lacuna fechada. Estamos acima da média global, mas abaixo da região, que está em 74,5%. Ficamos praticamente estáveis em relação ao ano anterior, com uma pequena oscilação negativa na pontuação. Fica muito claro que o Brasil acompanha parte das tendências regionais, mas ainda não conseguiu transformar isso em salto consistente.

O Global Gender Gap 2026 deixa uma mensagem muito nítida. A primeira etapa da luta por igualdade foi abrir portas. A próxima será decidir quem ocupa os centros de comando da economia, da tecnologia e da política. É aí que a desigualdade se reorganiza hoje. E é também aí que vai depender o tamanho do avanço nos próximos anos.

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