Global Gender

“Ainda falta muito?”: A previsão é de 134 anos para a igualdade de gênero

Entre avanços e retrocessos, existem ações assertivas para reduzir esse número e virar o jogo

O Global Gender Gap Index é o mais antigo índice a acompanhar as disparidades de gênero entre as economias globais. Desde 2006, o relatório do Fórum Econômico Mundial fornece dados para analisar o progresso na equidade entre homens e mulheres em dois terços dos países do mundo – e os resultados deste ano mostram que, infelizmente, houve poucos avanços. Olhando para a série histórica, a desigualdade de gênero reduziu apenas 0,1%. Isso significa que precisamos de 134 anos para alcançar a plena paridade

O relatório analisa quatro áreas: participação econômica e oportunidades, educação, saúde e empoderamento político. De 2006, para cá os critérios relacionados à saúde e desenvolvimento educacional tiveram mais de 90% da diferença de gênero corrigida, mas aqueles relacionados à participação econômica e empoderamento político tiveram redução de apenas 60% e 22% dos seus gaps respectivamente

O índice também estipulou quanto tempo levará para todas as economias analisadas alcançarem a paridade em cada critério. Em educação a previsão é 20 anos, em participação econômica serão 152 e em empoderamento político são 169 anos. Não foi possível definir o tempo na saúde e sobrevivência, mas uma coisa é certa: a velocidade dos progressos alcançados pelas economias são insuficientes para alcançar os resultados dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU até 2030.



Desafios pela igualdade de gênero no Brasil

Das 146 economias de todo o mundo estudadas pelo relatório, ocupamos a 70ª posição no índice de paridade de gênero, atrás de países como Equador, Etiópia e Bangladesh. Na relação dos 22 países da América Latina, o país amarga na 16ª posição. 

Olhando para cada critério, essa é a fotografia do Brasil: 

  • Educação: tivemos um bom desempenho com um índice de igualdade de 99,6%. 
    • O país proporciona paridade na alfabetização e matrículas em diferentes etapas de ensino, mas ainda há segregação por gênero nos cursos superiores.
  • Saúde e sobrevivência: nossa taxa de paridade é de 98%. 
    • Alguns dos elementos considerados foram a proporção de nascidos vivos e a expectativa de vida saudável por gênero, a prevalência de violência contra mulheres e até a autonomia reprodutiva, considerada restrita.
  • Participação Econômica e oportunidades: o índice foi de apenas 66,7%.
    • Nossa força de trabalho tem cerca de 11 milhões de homens a mais que mulheres, com a taxa de desemprego entre elas sendo 3,1% maior. Além disso, 33,2% das mulheres brasileiras estão em empregos de meio período contra 19,7% dos homens. Mais de 35% delas estão no mercado informal.
  • Empoderamento político: alcançamos só 22% de igualdade.
    • O número ilustra uma queda de 4,3% em comparação a 2023 devido à saída de mulheres da liderança dos ministérios e à baixíssima representação feminina no parlamento: apenas 17,5% dos cargos são ocupados por elas.

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Crises que afetam a todos, mas especialmente às mulheres

Como afirmou Simone de Beauvoir em 1949, basta uma crise para que os direitos das mulheres sejam questionados. E a expectativa é de que, nos próximos anos, o cenário coloque ainda mais conquistas em xeque. O Relatório “Global Economic Prospects” do Banco Mundial previu que o final desta década será caracterizada pela taxa de crescimento do PIB mais lenta dos últimos 30 anos. Além disso, o relatório “Desigualdade S.A.” da Oxfam de 2024 mostrou que, no ritmo atual, o mundo terá seu primeiro trilionário já na próxima década, mas que, em contrapartida, milhões de mulheres serão empurradas para extrema pobreza. A desigualdade extrema irá impactar setores políticos, monopólios e tomadores de decisões de toda a cadeia socioeconômica. 

Em contrapartida, o fim das disparidades de gênero na política e na economia pode elevar o PIB global em até 20% (Banco Mundial). Para enfrentar a desestabilidade econômica e política em meio a crise do clima, a Oxfam propõe um modelo econômico que se paute no desenvolvimento sustentável e em uma economia inclusiva, sem colocar o lucro acima de tudo – uma meta que parece impossível, mas que pode ser alcançada com o compromisso de diferentes setores da sociedade.

  • Na política: devemos exigir dos políticos posicionamentos que ampliem e assegurem os direitos das mulheres, como à saúde, educação, ao trabalho, à segurança e o acesso a sistemas de cuidado equitativos, mas também é preciso apoiar candidaturas femininas no parlamento e no executivo

Segundo o Fórum Econômico Mundial, países com líderes mulheres são mais eficientes ao remover barreiras na participação feminina na força de trabalho, e quanto maior a representação, maiores os benefícios sociais. O King’s College London também demonstra que as lideranças femininas na política tendem a priorizar políticas públicas contra a vulnerabilidade social, e nos países em que há maior presença de mulheres na política, há maior engajamento no combate à corrupção, menor envolvimento em conflitos e maior respeito aos direitos humanos.

  • Dentro das empresas: o apoio das organizações é fundamental para inserir e manter mulheres no mercado de trabalho em condições de paridade. Apesar da legislação brasileira estabelecer a igualdade entre homens e mulheres, a disparidade de gênero persiste em função principalmente do trabalho de cuidado. As empresas podem se tornar aliadas das mulheres ao propor políticas inclusivas e equânimes, como rotinas de trabalho flexíveis, licenças parentais igualitárias e suporte para as pessoas com filhos em suas especificidades e diversidades, como auxílio-creche, auxílio babá, capacitações e planos de desenvolvimento adaptados.
  • Enquanto sociedade civil: o avanço de determinados temas depende de discussões e do apoio da sociedade, tanto em organizações sociais quanto como indivíduos que se articulam para tornar um interesse prioritário. A pressão popular e a opinião pública foram fundamentaos para barrar o PL do Estupro e o Marco Temporal, assim como foi crucial para aprovar a distribuição gratuita de absorventes. Também poderá fazer a diferença para aprovar a licença parental estendida e igualitária.

Segundo levantamento do Ipea de 2020, mulheres representam 72% da força de trabalho nas Organizações Sociais e 64% em Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, articulando ações nas mais diversas frentes e interesses. Isso mostra a importância da população feminina no setor que pauta grandes transformações políticas e sociais, e a necessidade de torná-las cada vez mais protagonistas dessas mudanças alçando mais aliados. 

Só assim poderemos garantir a manutenção das conquistas feitas até aqui e criar novos horizontes para ampliar a equidade em todos os espaços.

*Este conteúdo contou com a colaboração de Rubiana Viana.

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