A solidão feminina impacta a vida e a saúde das mulheres

24% das mulheres apontam que a solidão ou a pouca interação social estão entre os fatores que mais prejudicam sua saúde mental.

Durante a adolescência, na fase adulta e até quando se tornam idosas… A solidão afeta a vida das mulheres ao longo dos anos e provoca consequências físicas, emocionais e financeiras que nem sempre são associadas a esse sentimento. 

O Estudo Global das Conexões Sociais mostrou que 14% das brasileiras se sentem muito ou razoavelmente sozinhas. Mesmo ao lado de amigos e familiares, frequentemente elas se sentem desconectadas das pessoas e do meio em que vivem. 

 

Por que será que isso acontece?

A pandemia da Covid-19 contribuiu significativamente para o empobrecimento das nossas conexões sociais, mas o motivo pelo qual as mulheres se sentem solitárias em casa e no trabalho tem raízes ainda mais profundas. 

Fenômenos seculares e contemporâneos reforçam a solidão

Quando crianças, as mulheres lidam pela primeira vez com o sentimento de rejeição provocado por preconceitos como racismo, gordofobia e capacitismo, manifestados através de comentários que ganham força e alcance na internet. Expostas por horas aos ambientes digitais, as meninas entre 13 e 17 anos fazem parte do grupo que mais se sente solitário no mundo

Já no começo da vida adulta, assim como suas mães e avós, muitas delas são responsabilizadas pelo cuidado da casa, da família e da comunidade sem receber nenhum tipo de remuneração ou suporte. Nesses casos, o tempo que poderia ser gasto socializando ou estudando, por exemplo, é usado muitas vezes para distrair as crianças e cuidar da rotina, reafirmando o isolamento feminino.

 

“Tenho que lidar com a minha maternidade, casa e trabalho sozinha.”

-Relato de uma mulher da comunidade Think Olga

 

Diante do compromisso de chefiar um lar e cuidar dos familiares sem uma rede de apoio, elas se deparam com mais obstáculos para entrar no mercado formal de trabalho. Quando conseguem, precisam lidar com preconceitos de gênero que dificultam sua ascensão e permanência. Quando superam essa barreira e crescem em seus cargos, vivem uma outra solidão: a corporativa.

 

Solidão Corporativa: você pode nunca ter ouvido falar, mas provavelmente já sentiu

Impulsionada pela falta de apoio, sub-representatividade e rivalidade feminina, a solidão também alcança as mulheres no mercado de trabalho. À medida que elas crescem profissionalmente, se sentem mais excluídas por seus colegas, ao contrário dos homens que ganham mais credibilidade conforme sobem de cargo. 

 

“Uma vez, fui promovida e minha par (e amiga pessoal na época) parou de falar comigo sem explicação.”

-Relato de uma mulher da comunidade Think Olga

 

Minoria no mundo corporativo, elas enfrentam uma questão estrutural. Com poucos exemplos de mulheres em cargos de liderança, mais da metade das profissionais sente solidão no trabalho, enquanto 30% das que ocupam cargos de nível sênior dizem não ter ninguém para conversar sobre carreira. As estruturas machistas podam seu crescimento e a solidão reforça suas inseguranças. Como resultado, acabam adoecendo.

Maioria entre os profissionais diagnosticados e afastados do trabalho por transtornos mentais como ansiedade, essas mulheres frequentemente recusam uma promoção ou pedem demissão para não causar um impacto negativo ainda maior em sua saúde física e emocional. 

 

Quanto maior a solidão, maior o risco à saúde

Sobrecarregadas por uma rotina exaustiva e privadas do convívio saudável com outras pessoas ao longo da vida, as mulheres chegam à terceira idade sentindo os reflexos da solidão e do isolamento na própria saúde. Além de propensão acentuada a desenvolver depressão e baixo-autoestima, enfrentam riscos maiores de ter problemas cardiovasculares, diabetes e demência, por exemplo.

Com uma expectativa de vida maior que a dos homens, as idosas costumam sobreviver a seus parceiros e se veem obrigadas a encarar a viuvez e a distância dos entes queridos ao mesmo tempo. Hoje, elas representam 18,9% das mulheres que vivem sozinhas no Brasil, taxa que cresce ainda mais à medida que envelhecem.

                                                                                               Fontet: Jornal Nexo

 

É nessa fase que o sentimento de inutilidade por não produzir como antes pode surgir, prejudicando o autocuidado e favorecendo a adoção de hábitos mais nocivos para a saúde, como o tabagismo e o consumo de álcool.

 

Como reverter esse cenário então?

Não podemos (e nem vamos) conseguir lidar com a solidão sozinhas. Afinal, estamos falando de uma epidemia que atinge mulheres de classes, raças e faixa etária diferentes em todo o Brasil. Portanto, precisamos da contribuição do setor público e privado. 

Investir em pesquisas e ampliar o cuidado em saúde mental no SUS e nas redes de assistência social são iniciativas importantes para eliminar preconceitos e garantir que pessoas de todas as idades não vivam em sofrimento mental. Em paralelo, vale criar políticas de incentivo à atividade física, principalmente para os idosos que perdem mobilidade com o passar dos anos e ficam mais tempo sozinhos.

Já no setor privado, garantir licença-paternidade estendida aos homens a fim de reduzir a sobrecarga feminina, reduzir desigualdades salariais e ampliar oportunidades para ter mais mulheres em todos os níveis hierárquicos são bons caminhos a seguir. Além disso, oferecer apoio psicológico para o cuidado da saúde mental reforça a valorização e acolhimento das mulheres.

 

Posts relacionados

Quer receber novidades, análises e indicação de conteúdos inspiradores sobre equidade de gênero nas empresas sem depender do algoritmo das redes sociais?