A presença das mulheres no mercado de trabalho aumentou. O salário não.

O 5º Relatório de Transparência Salarial mostra que avançamos por um lado e regredimos por outro. O levantamento analisou mais de 53 mil empresas com 100 ou mais empregados e a notícia principal é que as mulheres continuam ganhando menos. A diferença salarial aumentou e saímos de 19,4% em 2024 para 21,3% em 2025.

Se há décadas falamos de igualdade salarial como uma premissa para a igualdade de gênero, por que ano após ano a diferença persiste? Sobre isso, fomos ouvir Bárbara Ferrito, Juíza do Tribunal Regional do Trabalho no Rio de Janeiro. Ela aponta que o fenômeno é histórico e multicausal.

“A brecha salarial é um fenômeno multicausal. As mulheres fazem menos horas extras e têm menos flexibilidade, muitas vezes estão em contratos por tempo parcial ou nos ramos mais informalizados. (…) A pobreza do tempo também influencia. Elas têm menos disponibilidade para viajar, por exemplo. Além disso, sofrem estereótipos de baixa liderança, de não saber lidar com pressão. E é interessante como esses estereótipos não se manifestam na prática. Pelo contrário. Elas lidam muito bem com a pressão e com as emoções que decorrem dessa pressão, muito melhor que os homens. (…)”
Bárbara Ferrito, Juíza do Tribunal Regional do Trabalho no Rio de Janeiro

O relatório também mostra que mulheres negras são as que ganham menos, cargos mais altos são os que apresentam maiores desigualdades e empresas de grande porte – que costumam ter salários mais altos – têm maior disparidade. Os fatos mostram que só a transparência e a Lei de Igualdade Salarial não têm dado conta de mudar esse cenário. Aqui, entramos em um campo mais difícil de mensurar, em que a lei não consegue capturar as discriminações indiretas – e culturais -, práticas recorrentes de um mercado de trabalho que não valoriza as habilidades das mulheres.

“Também vale ressaltar o conceito de divisão sexual do trabalho, que funciona pela lógica da separação – existe um trabalho “próprio” das mulheres e um trabalho próprio dos homens, e a lógica da hierarquia – onde o trabalho “próprio” dos homens vale mais que o delas. Por exemplo, uma cuidadora de idosos precisa ter resiliência, paciência, afeto, cuidado… E o cargo não é valorizado como o de um pedreiro, que demanda força física. E, no entanto, os dois exigem a mesma instrução escolar. Por que o afeto, a paciência e a resiliência não são valorizados tanto quanto a força física? (…) A Lei, hoje, não traz uma foto detalhada da situação. Só o salário não explica essa brecha.”
Bárbara Ferrito, Juíza do Tribunal Regional do Trabalho no Rio de Janeiro

No meio de tantas barreiras para superar, nossos estudos e trocas com comunidades femininas mostram que o principal desejo delas é ter dinheiro para viver bem, com dignidade e sem depender de ninguém. É diferente dos homens que, em sua maioria, associam o dinheiro com a possibilidade de aumentar seu status e reconhecimento externo. As mulheres podem sim querer isso, mas antes elas querem o básico, que é uma vida digna e autonomia financeira. Querem ter a liberdade e a possibilidade de fazerem escolhas melhores. Sem a igualdade salarial, dificilmente chegaremos nesse lugar.


Onde avançamos?

A boa notícia é que a participação feminina no mercado aumentou cerca de 11% de acordo com o 5º Relatório de Transparência Salarial. E isso não é por acaso. Outras políticas, que facilitam a entrada e permanência delas no emprego, também avançaram:

  • a oferta de jornada flexível chegou a quase 54% dos empregos
  • o auxílio creche foi de 22,9% para 38,4%
  • as licenças estendidas, tanto maternidade quanto paternidade, cresceram de 20% para 29,9%. 


Quando existe suporte e condições mínimas, as mulheres acessam o seu espaço no trabalho formal e não precisam recorrer à informalidade. 

Para além do acesso, se o Brasil de fato avançar na igualdade de gênero no trabalho, a economia e toda sociedade vão sentir positivamente. A Organização Internacional do Trabalho mostra que poderíamos ter crescido até R$ 382 bilhões entre 2017 e 2025 se tivéssemos adotado políticas de igualdade de gênero. Com a equidade plena, esse número poderia dobrar. 

“Todo mundo tem a ganhar ao eliminar essas lacunas: além do clima na equipe se tornar mais produtivo e motivador, a organização reduz os seus riscos de imagem e prejuízos reputacionais com o público ou investidores. As empresas que valorizam as mulheres já entenderam que corrigir as disparidades não é bom só para elas, mas também para os negócios.Maíra Liguori e Nana Lima – cofundadoras da Think Eva


Se a sua empresa tem desafios e quer ampliar a ascensão e permanência das mulheres na equipe, entre em contato com a gente.

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