É necessário transferir a conversa para onde ela começa, não onde acaba.
A sociedade vem acompanhando estarrecida os casos de feminicídio da última semana. Eles chamam a atenção pela brutalidade e pela maneira gráfica que representam o ódio às mulheres, que só cresce no Brasil. Neste ano, 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar, de acordo com pesquisa recente do DataSenado. Isso quer dizer que 3 em cada 10 brasileiras em um relacionamento passam ou já passaram por essa situação ao longo da vida. Essas mulheres são as mesmas que se apresentam para trabalhar todos os dias, em condições físicas e emocionais frágeis, que muitas vezes prejudicam suas carreiras e sua produtividade. São mães de crianças, que testemunham essas violências cotidianamente e desenvolvem traumas irreparáveis. São amigas, filhas e colegas de trabalho que, por terminar um relacionamento, assinam sua sentença de morte.
O Disque 180, canal de apoio do Governo Federal a mulheres nessa situação, acaba de completar 20 anos. Foram mais de 16 milhões de atendimentos e encaminhamento aos serviços públicos de acolhida e reabilitação de mulheres e crianças. Somente em 2025, foram 2.895 atendimentos por dia, mais de 125 mil denúncias de violência, sendo 66% delas feitas pela própria vítima. Mas as respostas institucionais estão muito aquém do mínimo necessário para amparar as mulheres. Tanto que elas demoram, em média, mais de um ano para procurar os serviços públicos de acolhimento, cada dia mais sucateados e sub financiados.
Problemas complexos exigem soluções múltiplas, mas existe um aspecto ainda muito pouco trabalhado: falamos muito da mulher que morre, falamos muito pouco sobre o homem que mata. A misoginia é um dos crimes mais banalizados na sociedade brasileira, vitimiza 4 mulheres por dia e já virou paisagem. E como o poder público lida com isso? Aumentando penas para homens que já protagonizaram a tragédia. Ou entregando spray de pimenta para mulheres e transferindo a elas a responsabilidade de fazerem a própria segurança.
Não estamos debatendo – e agindo – o suficiente sobre o homem que intimida, violenta, estupra, cerceia direitos humanos básicos de suas companheiras. Eles são protegidos pelo imaginário de que um agressor é um monstro que arrasta mulheres desconhecidas para um beco escuro. Mas o feminicida clássico é um companheiro ou ex-companheiro, um pai ou um colega, que não aceita as escolhas de uma mulher e destila seu ódio em forma de mutilações genitais, estupros, corpos arrastados por carros, execução com infinitos tiros ou 61 socos no rosto.
O ambiente de trabalho também não é um espaço seguro. Frases como “eu não gosto de trabalhar com mulher” ou “não aceito ordens de mulher” são motivo de risadinhas e abrem caminho para o sofrimento contínuo e até a morte, como é o caso das duas servidoras da CEFET assassinadas pelo colega no Rio de Janeiro. Esse e outros casos mostram que o decoro no ambiente de trabalho não é suficiente para impedir violências. Os comportamentos profissionais são permeáveis e carregam visões pessoais de quem acredita que mulheres devem ser subjugadas. Os agressores de mulheres também são funcionários, líderes, terceirizados, estão dentro das empresas e muito pouco se fala sobre isso. Até que uma empresa é invadida por um homem armado e vira cenário de um crime hediondo. Até hoje, empregadores lidam com isso como um “problema de ordem pessoal” e, mais uma vez, colocam as mulheres como únicas responsáveis pela própria segurança.
Falar sobre os agressores é colocar a responsabilidade do absurdo do lado certo. É discutir uma cultura em que a emancipação das mulheres é recebida como uma afronta por quem as trata com desprezo. É reafirmar a Internet como vetor para radicalizar meninos que, cada vez mais cedo, começam a violentar suas parceiras. É apontar o papel da mídia pela espetacularização desses crimes como caça cliques para monetização. É mostrar a importância de indiciar criminalmente homens frustrados que vendem cursos de como dominar mulheres a outros homens e meninos frustrados.
–
Nesse momento é importante deixar a indignação dar uma resposta à altura aos crimes que testemunhamos todos os dias. Mas também é o momento certo para tratarmos dessa conversa onde ela começa e não como ela tragicamente termina.